A carabina CBC Nylon 66

CBC Nylon 66
Rifle Remington Nylon 66 modelo Apache Back

A carabina CBC Nylon 66


A atividade esportiva envolvendo o tiro como diversão se denomina plinking nos Estados Unidos. É o bem conhecido e popular tiro em latinhas, muito comum por aqui principalmente utilizando-se as carabinas de ar comprimido. O calibre 22LR, apesar de ser muito utilizado em tiro de precisão, e pelo fato de ser relativamente barato, acabou por se tornar um calibre para plinking por excelência, embora a caça de pequenos animais e roedores também lhe cai bem; mas trata-se de uma prática bem rara no Brasil e culturalmente não apreciada.

Na década de 60 no Brasil não haviam muitas opções de armas destinadas à diversão. A Rossi possuía uma carabina em calibre 22LR, de um só tiro e de repetição, que fez um relativo sucesso, bem como a CBC com um modelo também de repetição por ação de ferrolho, mas contando com um carregador de 6 a 10 tiros.  A opção de uma carabina 22 semiautomática era muito interessante para popularizar a atividade de tiro de diversão, uma vez que a oferta praticamente se residia em carabinas importadas e mais caras, como as da Remington e da Winchester.

Durante a Grande Depressão norte americana, a tradicional empresa Remington Arms estava com sérios problemas financeiros, e acabou sendo adquirida pela Dupont, a gigante da indústria química americana, que a partir daí alavancou de forma bem mais atuante o mercado de pólvoras e explosivos. Logo em seguida o grupo comprou a Peters Cartridge Co., fabricante de cartuchos de munição. Em meados da década de 50 os engenheiros da Remington estavam interessados em projetar um rifle de baixa potência, para o mercado popular, mas que fosse mais barato de produzir.

Após uma análise inicial, a Remington pediu aos engenheiros químicos da DuPont para criar um plástico que pudesse substituir tanto a coronha de madeira quanto o receptáculo do mecanismo. As especificações fornecidas à DuPont exigiam um material que pudesse ser moldado em qualquer formato desejado, mas que também tivesse um alto impacto de tração e resistência à flexão.

Depois de várias pesquisas, a DuPont apresentou à Remington um composto que chamaram de Nylon Zytel-101. Zytel é a marca registrada da DuPont para o componente nylon. Este composto foi finalmente usado para produzir a coronha e receptor, em uma única peça.

Acima, os dois lados da carabina Remington Nylon 66 na opção Mohawk Brown

Baseado nesse material, a Remington projetou um rifle semiautomático em calibre 22LR, com um carregador tubular metálico para 15 cartuchos, que era inserido pela soleira da arma. Para facilitar o municiamento da arma, os cartuchos eram inseridos soltos pelo orifício da soleira e o carregador era colocado posteriormente e girado um quarto de volta para travar.

A arma, após longos testes de funcionamento e durabilidade, recebeu comercialmente o nome de Remington Nylon 66. O número 66 é oriundo da especificação do material, um tipo de poliamida. O Nylon 66 é feito de dois monômeros contendo cada um, 6 átomos de carbono, daí a numeração 66. O mercado de armas de fogo geralmente carecia de experiência com ações sintéticas, tornando o Nylon 66 uma aposta arriscada para a Remington.

Desta forma, em 1959, a Remington Arms lança o rifle Nylon 66 no mercado norte-americano.  Foi um dos primeiros rifles produzidos em larga escala a apresentar uma coronha feita de um material diferente da madeira. A construção amplamente sintética permitia que o Nylon 66 pudesse operar sem a adição de lubrificantes.

Desenho esquemático da caixa de culatra da carabina Nylon 66 onde se percebe claramente o carregador em forma de tubo.

A grande maioria das peças, ou em alumínio ou aço estampado, trabalhavam em contato com o próprio material da coronha. Isso o tornou popular nas regiões árticas e, de fato, houveram muitos relatos de povos indígenas matando animais grandes, como alces, com um cartucho .22LR disparado de um Nylon 66. Alguns especularam que o peso leve da arma poderia causar uma precisão abaixo do padrão no campo, mas isso não parece ser uma reclamação constante dos atiradores de Nylon 66.

Acima os rifles Nylon 66 nas configurações Mohawk Brown e Apache Black, as mais comuns e as mais produzidas nos USA e no Brasil

O rifle Nylon 66 foi equipado com alça de mira regulável, feita em aço estampado, e uma massa de mira feita em alumínio anodizado em preto, com formato semelhante à uma barbatana de tubarão. Além disso o receptor tinha a superfície dotada de dois trilhos que poderiam acomodar suportes para mira telescópica. O guarda-mato era em plástico preto, bem como a tecla do gatilho e a alça de engatilhamento.

                          

Os dois lados do rifle Nylon 66 no padrão Mohawk Brown

Ele estava disponível em várias cores, denominadas comercialmente como “Mohawk Brown”, “Apache Black” e “Seneca Green”. A coronha possuía a empunhadura e o guarda-mão com parte da superfície zigrinada, o que dava uma aparência similar às coronhas de madeira, e o acabamento era em alto brilho. Algumas das versões tinha a tampa da caixa da culatra oxidadas. Os modelos de maior luxo, como a Apache Black, a tampa era em aço cromado, bem como o cano.  Estima-se em 1.200.000 carabinas produzidas até 1987, sendo que a versão Mohawk Brown representa quase 60% do total.

Depois que o pequeno rifle Nylon 66 provou ser um sucesso, a Remington também comercializou uma série de outros rifles de ferrolho e alavanca usando coronha de Nylon.

No Brasil, no início da década de 60, a Companhia Brasileira de Cartuchos, CBC, tinha o seu controle acionário nas mãos da Duperial, uma empresa do ramo de explosivos formada pela junção da norte-americana Dupont com a britânica I.C.I., Inperial Chemical Industries, com sede em Birmingham. A Duperial se estabeleceu no Rio de Janeiro em 1937 e depois muda-se para São Paulo, em 1943.

No começo da década de 60 os engenheiros da CBC acreditavam que a Nylon 66 era a arma que faltava no mercado brasileiro. Além do calibre relativamente barato de manter, a arma era excelente para nosso clima úmido, onde a sua coronha plástica resistiria muito mais facilmente sem empenamentos ou simplesmente apodrecer. Quase todo o ferramental veio da Remington dos Estados Unidos, o molde de injeção, que era uma das peças mais caras e críticas, bem como todos os desenhos; acompanharam o enxoval  mais seis fresadoras copiadoras de produção Cincinatti, maquinário esse essencial para a produção das coronhas. A maior parte das peças internas, em alumínio, aço e até sinterizadas eram encomendadas no mercado interno ou feitas na própria CBC. Algumas peças vieram da Remington mas serviam apenas como parâmetro de comparação. A matéria prima principal, o polímero, seria fornecido pela própria Dupont. Os canos eram forjados na própria CBC feitos com aço 1137. A coronha ficou à cargo de uma das poucas empresas no Brasil que poderiam executar o serviço sem dificuldades; a fábrica de produtos plásticos e de brinquedos Trol, que pertencia ao ex-ministro Dilson Funaro. Com a morte de Funaro em 1990, a Trol fechou suas portas. 

A produção se iniciou em 1962 e até meados de 1983 cerca de 60.000 carabinas foram produzidas. Em 1983, a Firearms Import & Export de Oppa Loka, Flórida, USA, fechou um contrato de fornecimento de 100.000 carabinas para os Estados Unidos, em um período de tres anos. A produção da arma na CBC saltou de 12 a 13 por dia para estonteantes 100 peças diárias. 

Os primeiros lotes enviados aos USA deram muitos problemas, que tinham que ser solucionados aqui no Brasil a toque de caixa. Quanto à fragilidade de alguns componentes, o gatilho e o dedal de engatilhamento do ferrolho, originalmente em plástico preto, foram substituídos nas armas para a F.I.E. por peças microfundidas. 

Até hoje em dia, quem possui ou já possuiu essas carabinas, raramente cita a existência de problemas. Mesmo com a munição que a CBC fornecia até meados da década de 70, que não era muito bem vista pelos aficionados do tiro, incidentes como negas ou defeitos de extração e alimentação eram raramente reportados. De maneira geral a arma funcionava muito bem. A munição 22LR CBC costumava deixar muitos resíduos nas armas, principalmente resíduos de chumbo, pólvora e da graxa de lubrificação. Mesmo sem desmontar as carabinas para limpeza, as Nylon 66 costumavam funcionar anos a fio sem problema algum.

A lubrificação interna do mecanismo não era tão necessária. A desmontagem parcial da arma, para uma limpeza superficial, era bem simples. O dedal de armar o ferrolho podia ser retirado com a mão, sem ferramentas. Aliás isso era um ponto negativo, pois era bastante comum os proprietários perderem essa peça, que às vezes se soltava sozinha. Sem esse dedal, bastava retirar os dois parafusos de fixação da tampa da caixa da culatra. A alça de mira era fixa em um prolongamento dessa tampa.

A tampa superior removida e vista por cima da culatra, onde se nota o “cão” armado com sua mola comprimida, percussor e ferrolho.

O encaixe para o ejetor, na lateral da culatra; as peças são o ejetor, os parafusos e o dedal de engatilhamento. 

Retirando-se um parafuso grande na parte inferior da coronha, soltava-se um retém de metal que fixava o cano, sendo o mesmo retirado com facilidade para facilitar a limpeza. Por cima da caixa da culatra podia se ter acesso ao ferrolho, percussor e mola. O ejetor é uma pequena peça estampada encaixada em uma fenda do lado esquerdo, e é muito fácil de cair ao chão e até mesmo esquecê-la na montagem. 

O gatilho era relativamente pesado, muito até para a prática do tiro esportivo, e o mecanismo não permitia um alívio dessa pressão. No entanto, para o fim mais determinado de uso dessa arma, ou seja, o plinking e até mesmo a caça,  até que era bem providencial essa pressão excessiva e o curso relativamente longo, por medida de segurança. Além disso, a carabina possuía uma trava de segurança deslizante na parte superior da coronha, bem ao alcance do polegar, com as posições de travada e destravada. Não era mecanicamente eficiente do ponto de vista de bloquear o percussor, por exemplo, de modo que uma queda da arma ao chão, mesmo travada, poderia ocasionar um disparo acidental. 

O medalhão da soleira com as marcas Remington e CBC, a soleira com o encaixe do carregador e o detalhe da trava de segurança.

Mesmo com esses detalhes, a arma até era bastante utilizada em estandes de tiro para as provas de precisão. A coronha muito leve atrapalhava um pouco, mas o gatilho sempre foi o pior fator. A alça de mira até que era aceitável, com micro-regulagens tanto na altura como na lateral, apesar de que o fato de ser montada sobre um prolongamento da tampa da culatra ao invés do próprio cano, pode causar pequenos desalinhamentos.  

Acima, a alça de mira, com regulagens de altura e lateralidade, mas sem cliques – embaixo, o dedal de armas o ferrolho, peça muito fácil de perder. 


A tampa da culatra , que era de chapa de aço estampada e dobrada, tinha um trilho na parte superior para permitir a montagem de suportes para miras telescópicas. 

A CBC produziu cerca de 200.000 carabinas Nylon 66, sendo que 1992 foi o ano em que encerraram a sua produção. A Nylon 66 foi uma arma que fez sucesso no país. Era muito apreciada pelos jovens que a usavam para iniciação no esporte do tiro. A bem da verdade, seu peso excessivamente leve não a deixava ser uma arma ideal para tiro de competição, onde ainda imperam as carabinas com canos pesados e coronhas de madeira. Mas a vantagem de ser muito resistente à quedas, batidas, riscos e umidade, funcionando vários anos sem nunca ter sido aberta para lubrificação, era um trunfo e ótima razão para o pessoal do plinking apreciar bastante essa carabina que fez história entre nós. 

Acima, a vista explodida da carabina CBC Nylon 66

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Fonte: 

armasonline.org



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