Enfrente os tiranos

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Enfrente os tiranos


Por: William H. McRaven


Se você quer mudar o mundo… 

não fuja dos tubarões. 


O mar da ilha de San Clemente estava agitado e frio quando começamos nossos 6,5 quilômetros de natação noturna. Meu companheiro Marc Thomas espelhava minhas braçadas uma a uma. Usando apenas a parte de cima do traje de mergulho, máscara e um par de nadadeiras, nadávamos com esforço contra a corrente que nos empurrava para o sul, ao redor da pequena península. As luzes da base naval de onde tínhamos partido começaram a desvanecer à medida que entramos em mar aberto. 

Em uma hora estávamos a cerca de 2 quilômetros da praia e aparentemente sozinhos na água. Se havia alguém nadando à nossa volta, estava encoberto pela escuridão. Eu podia ver os olhos de Marc através do vidro da máscara. Sua expressão devia refletir a minha. Nós dois sabíamos que as águas de San Clemente estavam cheias de tubarões. E não eram simples tubarões, mas grandes tubarões-brancos, os maiores e mais agressivos devoradores de homens do oceano. 

Antes de nossa partida, os instrutores do SEAL nos deram uma prévia das ameaças que poderíamos encontrar naquela noite. Havia tubarões-leopardos, tubarõessombreiros, tubarões-martelos, porém o mais temido era o grande tubarão-branco. Era um tanto inquietante estar sozinho à noite, no meio do oceano, sabendo que, espreitando sob a superfície, estava uma criatura pré-histórica à espera de me partir ao meio. Mas nós dois queríamos tanto ser SEALS que nada naquela noite iria nos deter. 


Se tivéssemos que lutar contra tubarões, estávamos preparados. Nosso objetivo, que eu considerava honrado e nobre, nos dava coragem, uma qualidade notável. Nada nem ninguém poderia impedir nosso caminho. Sem coragem, outros o definiriam por nós. Sem ela, estaríamos à mercê das tentações da vida. Sem ela, os homens seriam governados por tiranos e déspotas. Sem ela, nenhuma grande sociedade poderia florescer. Sem coragem, os tiranos dominariam o mundo. Com ela, podemos conquistar qualquer objetivo. Com coragem, podemos desafiar e derrotar o mal.


Saddam Hussein, ex-presidente do Iraque, estava sentado na ponta de um catre do Exército, vestindo apenas um macacão laranja. Tendo sido capturado pelas forças norte-americanas 24 horas antes, era agora prisioneiro dos Estados Unidos. Quando abri a porta para os novos chefes do governo do Iraque, Saddam permaneceu sentado. Um sorriso sarcástico passou por seu rosto, e não se via sinal de remorso ou submissão em sua atitude. Imediatamente, os quatro líderes iraquianos começaram a gritar com Saddam, mas a uma distância segura. Com um olhar de desprezo, Saddam lançou a eles um sorriso devastador e fez sinal para que se sentassem. Temendo ainda o antigo ditador, cada um deles pegou uma cadeira dobrável e se sentou. Os gritos e as acusações continuaram, mas lentamente foram diminuindo quando o ditador começou a falar. 


No governo de Saddam Hussein, o Partido Baath fora responsável pela morte de milhares de xiitas e dezenas de milhares de curdos. Saddam havia assassinado pessoalmente alguns de seus próprios generais, que ele julgou desleais. Embora eu estivesse convencido de que Saddam jamais voltaria a ser uma ameaça para os outros homens presentes, os líderes iraquianos não tinham certeza disso. O medo em seus olhos era evidente. 

Aquele homem, o Açougueiro de Bagdá, tinha aterrorizado toda uma nação durante décadas. O culto à personalidade lhe garantira seguidores da pior espécie. Seus seguidores tinham brutalizado inocentes e obrigado milhares de pessoas a fugir do país. Ninguém no Iraque mostrara coragem de desafiar o tirano. Eu não tinha dúvida de que aqueles novos líderes ainda temiam o que Saddam fosse capaz de fazer – mesmo atrás das grades. Se o propósito da reunião era mostrar a Saddam que ele não tinha mais poder, estava sendo um fracasso. Naqueles breves momentos, Saddam conseguira intimidar e assustar a nova liderança governamental. Parecia mais confiante do que nunca. Quando os líderes saíram, instruí meus guardas a isolar o ex-presidente numa pequena sala. Visitantes não seriam permitidos, e os guardas receberam ordens de não falar com Saddam. Ao longo do mês seguinte, visitei aquela pequena sala todos os dias. E todos os dias Saddam se levantou para me cumprimentar, e todos os dias, sempre sem falar, fiz sinal a ele para que voltasse a seu catre. A mensagem era clara. Ele não era mais importante. Não podia mais intimidar os que o cercavam. Não podia mais incutir medo em seus subalternos.

 O palácio resplandecente não existia mais. Tampouco as criadas, os servidores, os generais. Acabara-se o poder. A arrogância e a opressão que definiram seu governo tinham chegado ao fim. Jovens e corajosos soldados americanos enfrentaram sua tirania e agora ele não ameaçava mais ninguém. Trinta dias depois, transferi Saddam Hussein para uma unidade militar adequada, e, um ano mais tarde, os iraquianos o enforcaram por seus crimes contra a nação.

Tiranos são sempre iguais. Não importa onde estejam: no pátio da escola, no local de trabalho ou governando um país por meio do terror. Eles prosperam onde há medo e intimidação. Extraem sua força dos tímidos e fracos. São como tubarões que sentem o medo na água. Circulam para ver se sua presa está lutando. Investigam se sua vítima é fraca. Se você não encontra coragem para enfrentá-los, eles atacam. Na vida, para conquistar objetivos, para completar a natação noturna, teremos que ser homens e mulheres de grande coragem. Essa coragem está dentro de todos nós. Cave bem fundo, e você vai encontrá-la em abundância.



Capítulo 7 do Livro "Arrume a Sua Cama" de William H. McRaven


Não recomendo o livro (kkkkk), é uma porcaria e cheio de clichês motivacionais....



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