Farinha, toucinho e “bala de rife”... Particularidades do comércio de armas no Brasil do início do Séc. XX

comércio de armas no Brasil  Século  XX

Farinha, toucinho e “bala de rife”... Particularidades do comércio de armas no Brasil do início do Séc. XX


O Brasil é um país de dimensões continentais e isso é um fato mais do que conhecido. A distância entre o litoral e os mais afastados rios, florestas, sertões, chapadas, pantanais, e demais regiões do interior, por vezes é imensurável. O progresso seguiu naturalmente o rastro dos bandeirantes, jesuítas, tropeiros e boiadeiros, e as cidades e vilas foram se criando e estabelecendo as fronteiras deste colosso.

Obviamente foram necessárias armas de fogo, que, acompanhando a marcha dos desbravadores, serviam para a defesa naquelas imensidões sem lei e sem civilização, e para a caça sempre abundante em nossas matas, sertões e cerrados. Mas depois da colonização e do povoamento, com a construção das trilhas e estradas, devia-se prover de suprimentos as vilas e cidades; era necessário o comércio de todos os tipos de produtos, incluindo-se aí o de cutelaria, ferramentas, armas e munições.

Da segunda metade do Séc. XIX ao início do XX se alguém entrasse em um armazém (a conhecida “ venda” em algumas regiões, embora alguns defendam que o nome armazém defina um comércio maior e mais sortido) para fazer a compra mensal não causaria nenhum espanto se na sua lista, constassem além de farinha, toucinho, querosene... balas de “rife” 44, pois eram produtos necessários e encontradiços em qualquer loja de interior. Indo mais além e divagando um pouco (ou muito), seria engraçado poder dizer que guardadas as devidas proporções, as antigas “vendas” tinham a mesma filosofia das atuais redes de grandes supermercados: prover o cliente com absolutamente TUDO que ele precisasse como mantimentos, bebidas, artigos de armarinho, louças, utensílios domésticos dos mais variados, tecidos, papelaria, calçados, perfumaria, artigos agropecuários, fumo, artigos de pesca, querosene, cutelaria, ferragens e ferramentas, incluindo-se aí em muitos casos armas e munições.

Naquele momento da história do Brasil (até o fim dos anos 20), nas capitais e nas nossas mais importantes cidades, grandes lojas e firmas de importação traziam o melhor da Europa e América do Norte em todos os campos. Senhoras e cavalheiros podiam usufruir a moda e refinamentos ao mesmo tempo em que eram lançados nas cosmopolitas metrópoles estrangeiras, a Belle Époque, uma época de fato áurea...



Típico Armazém onde se vendiam todos os tipos de produtos, Lençóis Paulista - SP, 1908.



Mas o Brasil não fabricava costumeiramente armas naquele momento, e pode-se citar o anuário do Departamento de Comércio Exterior dos EUA em 1914 como importadores e comerciantes de armas do Brasil: no estado da Bahia- Brandão, Mário Dias, rua Guindaste dos Padres, 26, Machado, Soares & Co., Rua dos Droguistas, Palmeira, Beltrão & Fernandes, Rua Conselheiro Saraiva, 31. Em Campinas-SP- Palmieri, F. A., Rua 13 de Maio, 36. No Ceará- Viúva Villar &, Filhos, Rua Major Facundo, 72, João Tibúrcio Albano, Rua Floriano Peixoto, 46. No Pará eram Antunes, Simões & Co., Rua João Alfredo, 95, Araújo, Martins & Co., Boulevard da República, 9, Agostinho da Silva & Co., Rua João Alfredo, 36, Soares & Co., Rua 28 de Setembro, 192, Cunha, Cerqueira & Co., Rua 15 de Novembro, 53, J. A. Monteiro, Rua 15 de Novembro, 3, Joaquim L. Cerqueira & Co., Rua 15 de Novembro, J. A. da Silva Ferreira & Co., Leite Junior & Co., Rua João Alfredo, 18, Martins Vieira, Rua 15 de Novembro, 43 , Moreira, Gomes & Co., Rua 15 de Novembro, 7. Em Pelotas-RS- Bromberg & Co., Viúva. Behrensdorf & Co., Scholberg & Co. (esta firma ao que parece por algum tempo teve alguma associação com a Casa Laport do RJ), ainda no RS em Porto Alegre-RS encontraremos Bromberg & Co., Viúva Behrensdorf & Co., João Matuscheck. Em Rio Claro-SP, temos a Casa Gaetano Castelhano & Cia. No Rio de janeiro- Barbosa & Mello, Rua do Hospício, 154, Carneiro & Cia., Braga, Rua Visconde de Inhaúma, 03, Companhia Americana de Sellos-Coupons, Avenida Rio Branco, 10, Companhia Eusébio de Rocha, Rua do Theatro, 3, Dietrich, Paulo, Rua da Alfândega, 48, Pontes, A. G., Becco da Lapa dos Mercadores (sendo seu agente para os EUA a American South American Shipping Co., 78-80 Broad Street, New York City), Hasenclever & Cia., Avenida Rio Branco, 69-77, Hopkins, Causer & Hopkins, Rua Theophilo Ottoni, 95-99 (ramo da Hopkins, Hauser & Hopkins, 48 St. Paul's Square, Birmingham, England), Kramer & Cia., Rua General Câmara, 23, a famosa Emile Laport & Cia., Rua da Alfândega, 79 (sendo seu agente para os EUA, Markt & Schaefer Co., 193-195 West Street, New York City), Mestre & Blatge (esta era uma firma francesa precursora da atual "Mesbla", era especializada no comércio de máquinas e equipamentos), G. Laport & Cia., Rua dos Ourives, 34. Lucas, Armand, "Union Commerciale Franco-Bresilienne”, Rua Didimo, 14, Machado, Edmundo, Rua Visconde de Inhaúma, 64, Pereira & Cia., Bruggeman, Rua da Alfândega, 92, Pinto Irmão & Cia., A., Rua da Carioca, 7, Stoltz & Cia., Herm., Avenida Rio Branco, 66-74 (sendo seu agente para os EUA Hesslein & Co.,43-45 White Street, New York City), Thomas & Cia., A., Avenida Rio Branco, 14 (ramo da A. Thomas & Cie., 15 Rue Martel, Paris, France), Veiga & Cia., Mayrink, rua Municipal, 21 (agentes, Beatty Altgeldt & Co., Manchester, England; Thomas Turton & Son, Sheffield, England; Emil Gaua, Hamburg, Alemanha), e Vivaldi & Cia., Rua S. Bento, 14-16. Em Santos-SP, Ferreira de Souza & Co.,Guimarães, Antônio M. Rios & Ferreira, Pedro dos Santos & Co., Zerrener, Billow & Co. (com escritório em São Paulo). Em São Paulo- Armbrust & Filho, Largo de São Bento, 14, Baldan, Antonio, & Filho, Rua Florêncio de Abre u, 44, Campos, A. S., Rua de São Bento, 39ª, Duarte, Serva & Co., Rua Libero Badaró, 11, Araújo de Martins, & Co., Rua do Rosário, 15, Miguel, Ângelo Monte Pietro, Rua de São João, 127, Quilici & Filho, Av. Rangel Pestana,288ª, Riechmann & Co., Caixa do Correio, 133, Sarli, Luiz, Rua de São João, 49, Sarli, Nicolino, Largo de São Bento, Sil va, D. Roque da, Rua de São Bento,22ª, Zerrener, Billow & Co., Rua de São Bento, 81. E por fim em Vitória-ES, Frederico Dahlinger, na Avenida da República.





Tais representantes comerciais tinham por muitas vezes sócios estrangeiros ou representavam fábricas (no fim do Séc XIX o Rio de Janeiro foi o paraíso dos armeiros belgas), importando diretamente grande quantidade de armas, além de em alguns casos cutelaria, ferramentas, ferragens e artigos de montaria (sendo corrente entre os colecionadores paulistanos uma “lenda urbana oplológica” de que haveria uma tradicional e antiga loja de ferragens no centro de São Paulo, que teria algumas caixas originais de Winchester 73 ainda lacradas...).

Assim veremos em diversos catálogos além de pistolas de dois canos, revólveres, pistolas semi-automáticas, carabinas e até mesmo fuzis Mauser e Mannlicher, chegando todas estas armas a serem vendidas por catálogo e pelo reembolso postal (!), sendo a legislação brasileira da época mais moderna e liberal que a atual, não havendo grandes restrições a tipos de armas e calibres...

Mas se fuzis e mosquetões tipo militar sempre foram armas bem mais caras e restritas a um público mais específico, pois eram a espinha dorsal dos arsenais dos coronéis, seus jagunços, e dos cangaceiros, as carabinas Winchester eram a armas de todos (variando das raríssimas mod. 1866 às raras 1894, até às popularíssimas mod. 1873 - a “papo-amarelo” - e as mod. 1892), uma verdadeira praga, estas sim vendidas literalmente em qualquer armazém de “secos e molhados” (daqueles saudosos com 6 ou 8 portas na fachada). 

As carabinas e Fuzis de alavanca Marlin (diversos modelos) e Colt Lighting, inclusive em calibres totalmente inusuais do tão comum 44-40 também aparecem, mas não são comuns por aqui, e na minha modesta opinião se vê um deles para cada 10 Winchester (dizem que carabinas Marlin são algo mais encontradiças em algumas regiões de Minas Gerais, pois naquela época um comerciante local comprou um grande lote de Marlin). Dividindo a preferência com a Winchester as espingardas também sempre foram armas de muita utilidade na caça e proteção do sítio e da roça do caboclo ou mateiro, sendo bastante populares as de percussão (até quase totalmente por motivos econômicos, pois a pobreza grassava), substituídas paulatinamente pelas que usavam cartuchos à medida que a maior industrialização fazia o preço destas baixar.

Até alguns anos atrás (os anos “pré-estatuto”) espingardas de percussão artesanais (as “pica-pau”, “rabo de cotia”, “rela de banda” dentre outros pitorescos nomes) ainda eram vendidas livremente em feiras do Norte/Nordeste do Brasil. Para defesa as armas preferidas também por motivos econômicos, eram modestas Garruchas de 2 canos raiados, sendo as de origem belga e espanhola em calibres 320, 380 e 440, fartamente encontradas em nosso meio.

Revólveres e pistolas semi-automáticas eram bem mais caros, daí por este motivo também as já citadas armas belgas e espanholas (a maioria cópias de famosas armas americanas e européias), terem tanta preferência entre nós, pois simplesmente “funcionavam” e eram as mais baratas Houve época até que nossos matutos ficaram exigentes e queriam somente usar munição de origem americana fabricada pela Remington e Winchester, em detrimento a munição nacional da época, que tinha precária qualidade. (sabidos eles!).

Não devemos nos esquecer dos queridos mascates e caixeiros viajantes que percorriam no lombo de mula e cavalo os caminhos tortuosos e inacessíveis do sertão, da mata, e da serra, levando mercadorias a esquecidas vilas e fazendas localizadas no “fim do mundo” (segue uma alusão aqui a persistente alcunha de “turco” aos imigrantes do Líbano e da Síria que ocuparam por muitos anos esta função), e que segundo consta muitas vezes trouxeram dentre as suas encomendas armas e munições, até mesmo caixas lacradas que iam parar nos arsenais privados de coronéis.

Assim, embora obviamente não se deva ter a falsa impressão de que se pudesse comprar armas em qualquer esquina (a grande maioria dos comércios vendia apenas pólvora, espoleta e chumbo), podia o civil comum nos pontos mais distantes de nosso país usufruir em qualquer bom armazém ou loja do que de melhor existia na armaria mundial, e de fabricantes de todas as origens (e certamente também com que existia de pior, aliás, se vê cada coisa estrambótica que não se sabe como entrou aqui).

Ressalvo ainda que nos lugares onde existem colônias específicas de imigrantes, há armas que não são vistas em outras regiões, assim, por exemplo, veremos no sul do Brasil antigos fuzis de tiro ao alvo tipicamente alemães e/ou suíços, ou a posse de revólveres tipo Abadie em mãos de imigrantes portugueses, etc.

Tal situação liberal mudou depois da revolução de 1930, com a publicação do decreto do exército R-105 que proibiu quase tudo, desarmando as unidades e arsenais da Guarda Nacional em mãos dos coronéis, obviamente com o objetivo claro e prático de truncar as tentativas de contra-revolução (e mostra nestes 79 anos do R-105 claramente a falência da pura e simples proibição, aliás, leis nunca impediram os homens maus de conseguirem suas armas, mas aos bons sim... Um caminho mais lógico seria a legalização mais abrangente e um controle mais efetivo e coerente destes artefatos).

Bons e honrados tempos eram aqueles, onde se podia além da farinha e do toucinho pedir ingenuamente (não havia o banditismo que há hoje, e quase todo cidadão era acima de qualquer suspeita, pois um fio do bigode de um homem era dado como garantia e considerado um “contrato” comercial, mesmo nas famílias mais simples a educação, o trabalho, o respeito ao próximo e a honestidade eram valores primordiais) e legalmente (pois a legislação era branda e coerente) ao simpático “vendeiro” alguns cartuchos para a nossa carabina Winchester ou Marlin cal. 30-30.


Fonte: 

Vitrine da Armaria


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