AN-94 Parte 1

 

Fuzil AN-94 - Parte 1


Mesmo com a Guerra Fria indo para o fim, a evolução das armas de fogo na URSS não parou. Nós temos uma visão de que as pesquisas e desenvolvimento se limitaram somente ao AK-47, AKM-47 e AK-74. 

A bem da verdade, várias equipes criaram modelos, conceitos e tecnologias além do seu tempo. Solucionaram o problema da fabricação em massa e depois solucionaram o problema do grande recuo e falta de precisão.


Solucionaram isso com o AK-74 e agora a meta era solucionar o problema da falta de controle em regime automático, para gerar um alto índice de acerto. Isso não era um problema e sim um medo de ser passado pelo ocidente na tecnologia de controle de rajadas. O AN-94 nasceu soviético e morreu russo.

 

Panorama de estudos e ideias pós AK-74

O uso de fogo automático, mesmo com calibres mais leves e de recuo menor (mais controláveis) ainda enfrenta o problema da dispersão dos projéteis e o consumo alto de munição. Em outras palavras, é a velha máxima, disparo em automático é puro desperdício de munição. Para fazer frente a isso, alguns teóricos adotaram uma premissa viável. Aumentava-se a probabilidade de acertar o alvo com uma rajada curta de disparos usando fuzis com alta cadência de disparo. Em um curto período de tempo, seria disparado um determinado nº de disparos entre o início e fim da inércia do primeiro disparo. Esse nº de disparos ficaria entre 2 e 3 projéteis.


Soldado russo treina com o AK-74M.

Embora o AK-74 pudesse cumprir uma miríade de tarefas com sucesso, ainda estava a impossibilidade de acertos múltiplos em um único alvo. Teoricamente, o uso de uma rajada curta, a curta e média distância, daria ao soldado a chance de acertar uma maior quantidade de projéteis no alvo. Isso é teoria porque na prática isso muito raramente ocorre. Que fique claro, falamos de uma das várias características do fogo automático. Outro problema era quando o alvo usa alguma vestimenta balística, onde um único acerto não era suficiente para imobilizá-lo. Nos anos 80 vários exércitos começam adotar as primeiras vestimentas balísticas e era uma questão de tempo para que isso se proliferasse.

Na metade dos anos 80, estudos soviéticos viram que no século XXI as armas teriam de ter a capacidade de múltiplos acertos com alta precisão. A única forma de conseguir isso seria por armas com sistemas de balanceamento de recuo ou blowback de pulso deslocado. É importante dizer que isso também era questionado pelos americanos, as chances de acertos com uma quantidade mínima de disparos. No começo dos anos 80 eles pesquisavam em uma arma e munição que fosse multiuso, mas se depararam com um problema.


Soldados russos treinam com o AK-74M.

O soldado poderia acertar alvos a curtas, médias e longas distâncias com a mesma arma e mesma munição. Um único soldado poderia fazer a tarefa de qualquer soldado do pelotão com uma única arma e mesma munição. Eles viram mais tarde que isso seria impossível pela munição. Desta forma, partiram para uma solução mais radical no final dos anos 80. Os americanos defendiam que uma arma deveria lançar uma granada de 20 mm onde se fragmentaria sob o alvo, despejando estilhaços. Esse sistema deveria ser acompanhado de outros sistemas como miras, telêmetros e comunicação, dando a distância exata do alvo. Os estudos mostravam que o índice de acerto aumentaria em 400%.

Os soviéticos pensaram diferente, era muita coisa para o soldado carregar ou prestar atenção. Seria mais vantajoso, para eles, um sistema de acertos múltiplos com alta chance de acerto. Além do mais, o uso de um fuzil de assalto com um lançador de granadas especial exigiria do soldado um treinamento muito maior, completamente contrário do treinamento do soldado soviético, que era o mais simples possível.



AO-62.

A busca pela controlabilidade para maiores acertos em rajadas já vem desde os anos 60, o engenheiro Tkachev já tinha feito uma tentativa com o fuzil AO-62. Aqui temos que ter em mente que era um protótipo e ele não cumpriu o papel. Ele disparava uma rajada de 3 disparos em alta cadência de disparo. A arma não conseguia o agrupamento mínimo necessário, demonstrando uma alta dispersão dos projéteis pelo recuo maior. Mas o conceito era idêntico, o de blowback de pulso deslocado que será explicado logo mais.



TKB-059.

As pesquisas de acertos múltiplos resultaram em vários projetos interessantes. Korobov, por exemplo, em 1975, apresenta o modelo TKB-059, um bullpup 7,62 x 39 mm com 3 (três) canos paralelos e um grande carregador para 90 cartuchos. Disparando 3 canos, 3 cápsulas seriam ejetadas.



TKB-059.

Para sorte do soldado, as cápsulas eram ejetadas por uma janela localizada atrás do carregador. Mas ainda ficava um ponto não resolvido, era o recuo de disparos. Por mais rápido que fossem, o soldado teria que administrar um recuo maior, tornando a arma incontrolável e assim impossibilitando uma precisão satisfatória.

Uma equipe liderada por Yakushev apresenta um modelo híbrido, o modelo 80002, um fuzil calibre 5,45 x 39 mm com um lança granada de 12,7 mm. Os canos eram paralelos também, sendo que havia um carregador para o calibre do fuzil e outro carregador para as granadas que ficariam em paralelo. A arma tinha dois pistões para cada cano. No lado esquerdo da caixa da culatra havia uma tecla que, quando selecionada, disparava a granada com o mesmo gatilho.



Modelo 8002. Note o cano da granada ao lado esquerdo da arma.

A granada foi idealizada não para ser usada contra fortificações e veículos, mas sim contra soldados com alguma vestimenta balística. Mantinha as mesmas características de um fuzil de assalto com peso total de 4,7 kg. Nada mal.



Modelo 8002.

Os estudos levantaram uma série de considerações e em 1978 os soviéticos determinam a pesquisa de um fuzil que tivesse uma precisão que fosse maior que o AK-74 em 150 e 200%. A influência principal para era isso era o programa HK G11 da então Alemanha Ocidental. Tratava-se de um fuzil de assalto que tinha um grande probabilidade de acerto de 3 projéteis no alvo quase que instantaneamente em virtude da alta cadência de disparo. Os soviéticos viram que esse sistema era muito avançado e daria uma vantagem sem igual no campo de batalha para os alemães, já que os soldados com o G11 teria mais chances de derrubar o alvo no primeiro burst. Isso fez acender o alerta vermelho no exército soviético.

 

O programa Abakan

Visando um fuzil que superasse o AK-74, em 27 de agosto de 1981 surge o programa Abakan. O programa visava não só o aumento de precisão para impactos múltiplos como também facilitasse o treino de recrutas e o uso pelo soldado comum, que já estavam habituados com a simplicidade do AK-74. Este já era um projeto formidável. As dimensões deveriam ser as mais próximas do AK-74, assim como ter a mesma confiabilidade.



AK-74.

Ao todo 12 projetos foram apresentados. Para alcançar esses requisitos, a arma deveria ser completamente inovadora, para não dizer revolucionária. Deveria ter algum dispositivo ou novo sistema de operação que permitisse isso. O AK-74 era um projeto simples, mas completamente eficaz e cumpria muito bem com suas tarefas. Descartamos as ideias e conceitos, pois muitos não saíram do papel e não queremos cansar o Leitor.

Em agosto de 1984, 9 protótipos de fuzis foram apresentados. Para melhor alocação, dividiremos em 4 grupos.

  1. Usando mecanismos convencionais, estavam Korobov com o TKB-0111, Afanasiev com o TKB-0136M e Postnikov ANT.
  2. Usando mecanismo de recuo balanceado, estavam Koksharov e Garev com AEK-971, Pekin com o AEK-973 e Kalashnikov filho com o AL-9.
  3. Usando o princípio de blowback de pulso deslocado, Stechkin com o TKB-0146 e Nikonov com o AS.
  4. Usando um método híbrido, Tkachev e Simonov com o AO-63.


Os testes mostraram algo já esperado. Os protótipos usando o mecanismo convencional mostraram resultados inexpressivos se comparado com o AK-74. Os protótipos com balanceamento de recuo conseguiam resultados melhores, mas com sistemas ainda não plenamente desenvolvidos. Os protótipos que usavam o princípio de blowback de pulso deslocado conseguiram resultados ótimos e promissores. Isso mostrava que a nova arma deveria ter uma alteração radical no método empregado para que conseguisse atender os requisitos. As equipes mostram seus modelos.



TKB-0136M.

Afanasiev TKB-0136M adotava o mesmo sistema de gás a pistão e trancamento por ferrolho rotativo. A cadência de disparo era de 2.000 dpm, tanto no burst como no automático. O soldado poderia escolher em um seletor se o burst era de 2 ou 5 disparos.  Uma cadência maior de disparo sem controle de recuo necessitaria de um compensador para evitar o cano de subir tanto. É desenvolvido um grande compensador, acreditando que seria suficiente para o controle do recuo e da subida do cano. Entretanto, isso não era suficiente pela alta cadência dos disparos.



AL-9.

Kalashnikov filho apresenta o seu modelo, o AL-9, adotando um desenho técnico mais simples e conversador. Era praticamente um AK-74 com um sistema de balanceamento de recuo por pistões. Assim como o AK-74, não havia a opção de burst, mantendo a cadência de 800 dpm.  O sistema empregado aqui seria mais tarde usado na família AK série 100, onde o modelo 107 passa a adotar esse sistema. O modelo AL-9 dificilmente conseguiria suprir os requisitos já que mesmo com um recuo menor, ainda não resolveria o problema da dispersão dos projéteis.



AEK-973.

O modelo AEK-973 também adota um sistema de balanceamento de recuo, tal qual o AL-9. Assim como o AL-9, não tinha a capacidade de burst. E tal qual o AL-9, tinha uma única cadência de disparo de 1.000 dpm. Essa cadência de disparo ainda não seria suficiente para aumentar a probabilidade de acerto, mesmo tendo um recuo mais controlado.



TKB-0111.

Korobov TKB-0111 adotava um sistema clássico a gás com pistão e trancamento por ferrolho rotativo. O sistema de gatilho tinha uma alteração para semi, burst de 3 disparos e automático. Em regime de burst, o sistema permitia uma cadência de disparo de 1.700 dpm. Entretanto, no automático caía para 500 dpm. Para o regime de burst, havia a necessidade de um grande compensador para controle da arma em virtude da alta cadência. Esse sistema se mostrava mais promissor pela alta cadência, uma vez que era uma condição sine qua non para que o conceito de alta probabilidade de acerto fosse aplicado.



Postnikov.

O modelo de Postnikov adotava um modelo completamente diferente, algo radical e único. Ele estava fora da realidade ao apresentar esse modelo. Havia um pequeno orifício na câmara do cano. Após a deflagração, os gases entrariam por esse orifício e iriam diretamente contra o ferrolho, movimentando-o para trás, desbloqueando o ferrolho ao mesmo tempo. Isso seria um grande problema por dois motivos. O recuo seria violento e o ferrolho e transportador do ferrolho seriam desgastados com muito mais rapidez. Esse modelo mal foi avaliado e descartado quase que imediatamente. Com o forte recuo seria praticamente impossível controlar a arma, de tal ordem que a dispersão dos projéteis seria muito grande.



AEK-971 Garev.

O modelo AEK-971 apresentado por Garev era nada mais do que uma modernização do Konstantinov SA-006 (ver artigo sobre o AK-74). O modelo usava um sistema de balanceamento parecido com o AL-9. O pistão que corre contrário é maior, puxando uma massa igual ao pistão e transportador do ferrolho que corre para trás.  Adotava um sistema de burst de dois disparos com uma cadência de disparo de 1.500 dpm. O compensador era novo e muito eficaz para dar conta da alta cadência. Mais tarde, alterando o compensador, usando o mesmo do AK-74, e alterando a cadência de disparo, fazia o regime cair para 800 dpm. Isso aumentava a eficácia em cima do AK-74, mas perdia muito a precisão quando disparado em burst, o 2º disparo ficava distante do 1º.



AKB-1.

Kalashnikov filho apresenta um novo modelo em 1984, o AKB-1. Adotava o sistema de recuo balanceado e o fuzil não era ruim. Era mais preciso que o AK-74, assim como mais controlável. Mas mesmo assim ele tinha alguns problemas de panes e a arma esquentava mais do que o normal. Essa versão não tinha burst. Apenas o sistema de recuo balanceado. Essa arma se mostrou longe dos requisitos porque ela não tinha uma alta cadência de disparo que permitisse uma menor dispersão.



AKB.

Em 1985, após analisar os fuzis concorrentes e as orientações do Ministério da Defesa sobre os requisitos, Kalashnikov filho apresenta um novo modelo reformulado, o AKB. Esse modelo continua com o sistema de recuo balanceado. Porém, é adotado um sistema de burst de 3 disparos. Kalashnikov filho aumenta a cadência teórica de disparo para 2.000 dpm, como forma de aumentar a quantidade de impactos com uma menor dispersão. A proposta não dá muito certo, pois a dispersão continua alta uma vez que o sistema não tinha nenhum mecanismo de amortecimento eficaz e o compensador não era suficiente para uma cadência tão alta. Mesmo assim, o modelo aumentava em 120% a precisão do fuzil em relação ao AK-74.



TKB-0146.

O modelo de Stechkin TKB-0146 adota um modelo bullpup visando a simplificação de uma arma ao invés de duas, uma normal e outra compacta. O modelo de Stechkin adota o princípio do blowback de pulso deslocado. Nesse modelo, após o disparo, o grupo interno do ferrolho e cano recua 8 cm. Nesse momento, 2 disparos são efetuados antes que o transportador do ferrolho volte para frente e seja travado. A cadência de disparo podia ser selecionado entre 2.000 dpm em bursts de 2 disparos e 400 dpm em automático. A precisão era excelente e o recuo mínimo.



TKB-0146.

O fuzil tinha seus problemas. Ele apresentou uma quantidade maior de falhas em virtude da complexidade do seu mecanismo que, embora promissor, ainda carecia de aprimoramentos. Além disso, a arma era suscetível à entrada de sujeira que por sua vez gerava outras panes.

Tkachev apresenta seu modelo AO-63. Como sempre, Tkachev tenta inovar ao máximo. Ele apresenta um fuzil em que temos dois canos, dois ferrolhos e um carregador para 45 cartuchos. Esse fuzil tinha uma altíssima cadência de disparo de 6.000 dpm! Isso se dava para corrigir um problema. O fuzil, embora com dois canos, não podia disparar simultaneamente. Os gases que saíam do cano, ao mesmo tempo, interferiam na trajetória de ambos os projéteis que saíam ao mesmo tempo. Desta forma o fuzil atirava com milésimos de segundo de diferença de um cano para outro, para que os gases da deflagração de um cano não influenciasse a do outro.



AO-63.

O fuzil atirava em semi, burst de 2 disparos e automático. Em burst, os tiros funcionavam com 6.000 dpm. Mas em automático, mudava um pouco. Os 2 primeiros disparos eram em 6.000 dpm e, automaticamente, a cadência caía para 850 dpm, o que mesmo assim era alto já que o AK-74 trabalhava com 600 dpm. Caso a arma fosse usada em regime automático com essa alta cadência, em poucos segundos o soldado não teriam munição, com uma dispersão altíssima dos projéteis. Esse foi o ponto limitador do projeto.



AN-2.

Nikonov fez um modelo inicial com o sistema de impulso blowback de pulso deslocado. O modelo disparava um burst de 3 disparos e o índice de acerto foi muito promissor, acima do esperado. Mais modelos experimentais foram feitos, o AN-2 e AN-4. Este modelo adotava a configuração bullpup, visando uma arma mais curta e já olhando no futuro como um substituto do AKS-74U. A partir de 1983, eles adotam o layout convencional. O AN-4 tinha um peso de 3,8 kg e 2 cadências de disparos, 600 dpm e 1.800 dpm, o que se encaixava perfeitamente para o conceito de alta cadência para maior probabilidade de acerto.



AN-4.

Os modelos iniciais eram problemáticos. Dentro da caixa da culatra tinha uma espécie de um grupo de disparo que abrangia mais que o simples transportador do ferrolho. O disparo fazia com que esse grupo voltasse contra a parte de trás da caixa da culatra com extrema força. Isso podia gerar até perigo de lesões a quem disparasse. Já o AN-2 era mais ainda diferente ainda. O carregador ficava na lateral direta do fuzil. Pesava 3,23 kg e com 2 cadências de disparos, 600 dpm e 1.800 dpm.



AS.


Em 1986, Nikonov apresentou outro modelo de seu fuzil, o AS. Adotando o princípio do blowback de pulso deslocado, o AS fazia com que o soldado só sentisse o recuo após a arma ter disparado 2 disparos, tal como a arma de Stechkin. Dentro da arma, o cano era ligado a uma caixa da culatra interna que se movia no 1º disparo. Os disparos em burst tinham a cadência de 2.000 dpm e os demais disparos em 400 dpm. O carregador era especial para 60 cartuchos e mais tarde usado um convencional para 30 cartuchos.

Porém, o modelo AS tinha um problema que foi descoberto somente depois, nos testes de campo. O carregador era preso a esse mecanismo interno. A cada disparo, o carregador se movia para trás e para frente. O carregador, por ser preso ao grupo interno no ferrolho, acompanhava o movimento do ferrolho. Algo deveras bizarro e uma fonte de problemas, pois além das panes, havia o problema da precisão com aquela massa em constante movimento, ainda mais em altas cadências de disparos. Para evitar que o soldado apoiasse a mão pelo carregador, uma empunhadura frontal foi incluída, mas mesmo assim era um perigo o carregador prender em um dos dedos.





Em julho de 1986 a primeira fase é encerrada. As armas de Postnikov e Korobov são retiradas do processo. Em um primeiro momento, Kalashnikov filho tinha sido descartado também. Usando sua influência política, Mikhail Kalashnikov consegue convencer a comissão avaliadora a manter o fuzil do seu filho. Em setembro de 1986 saiu uma nova linha de cortes. Saem da concorrência Tkachev, Pekin, Afanasiev,  Kosharov e Garev e, também, Kalashnikov. Mesmo com a influência de seu pai, o Ministério da Defesa se mostrou decidido. Para uma arma que cumprisse os requisitos, seria necessário um desenho radical e inovador ao invés de desenhos convencionais.


Fonte:

Arma Bellica



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