Duas Derrotas: o Vietnã e o Afeganistão

 


Duas Derrotas: o Vietnã e o Afeganistão


Tradução Filipe do A. Monteiro, 13 de junho de 2021.


O comandante Pierre Ortiz lembra os motivos pelos quais, após 10 anos de guerra, os americanos fracassaram no Vietnã há 50 anos. Numa altura em que estes parecem querer retirar do Afeganistão as suas forças que ali estão desdobradas há quase 19 anos, ele explica porque é que esta retirada deve ser vista como mais um fracasso para os Estados Unidos.


Afeganistão, uma guerra americana e ocidental


Soldados afegãos e um soldado americano da ISAF, 2012.

Em outubro de 2001, os Estados Unidos, apoiados por seus aliados, travaram a guerra mais longa de sua história (19 anos). Os objetivos da guerra são bem conhecidos: primeiro, derrubar os talibãs - cúmplices e protetores de Bin Laden - que reinavam em Cabul e que se recusavam a entregar seu constrangedor convidado.

A primeira fase é conhecida: em poucos dias de ataques relâmpagos, os talibãs fogem e se juntam a seus maquis montanhosos e suas áreas tribais na fronteira com o Paquistão. Cabul está sob controle, objetivo alcançado. O próximo passo é impedir o retorno dos talibãs e estabelecer um regime de "boa governança" pró-Ocidente; isto será um fracasso.

Um menino afegão segura sua arma de brinquedo com soldados belgas da patrulha ISAF durante uma missão conjunta com soldados alemães em Taloqan, a oeste de Kunduz, no Afeganistão, em 30 de setembro de 2008.

Como no Vietnã, os Estados Unidos estão muito longe de suas bases; os meios e os recursos empregados serão colossais, de 800 a 1000 bilhões de dólares. Com o dólar menos no controle do mundo financeiro do que em 1965, a guerra será, portanto, mais longa e custará mais em comparação.

Ao contrário do Vietnã, os adversários enfrentados serão principalmente guerrilheiros pashtuns, que nunca se arriscarão a enfrentar a coalizão de frente. Poucas perdas materiais, controle aéreo total, uso máximo de armas aéreas: aviões, helicópteros e drones, sendo estes últimos de uso pesado; a guerra da "alta tecnologia"...

Um helicóptero Cougar espanhol sobrevoa um VBL do 2e REI da Legião Estrangeira Francesa no Afeganistão, 2005.

Poucas pessoas no terreno. Perdas de pessoal relativamente baixas: 2.400 mortos em 19 anos. Uma guerra engajados profissionais pouco questionada no país. Com mídia muito mais controlada do que no Vietnã, a lição foi aprendida.

Outro ponto em comum com o conflito vietnamita são os aliados locais, que são muito exigentes, pouco confiáveis, ineficientes, corruptos e, além disso, perigosos; há inúmeros casos de soldados do Exército Nacional Afegão voltando suas armas contra aliados ocidentais.

A guerra dos insurgentes


Um combatente mujahideen afegão carrega um míssil FIM-92 Stinger americano colina acima perto de Jaji, leste do Afeganistão, fevereiro de 1988.
(Robert Nickelsberg / Time Magazine)

O que impressiona talvez sobretudo neste confronto de 19 anos e mesmo de 41 anos, se começarmos a contar desde a chegada dos soviéticos no final de 1979, é a certeza e a determinação de superação por parte dos insurgentes qualquer que seja o custo e qualquer que seja a duração diante das forças que os dominam mil vezes por seus meios.

Uma certeza alimentada por uma cultura de guerras tribais mesclando naturalmente o estado de guerra com o da vida, uma fé religiosa beirando o fanatismo que defende a aceitação da onipresença da morte que não devemos temer, ou mesmo que devemos chamar como bênção.

Como para o Vietnã, um ódio ao estrangeiro ateu e a outra raça, a um invasor instalando um regime corrupto e rejeitado pela população pashtun, a um invasor que multiplica as vítimas entre a população civil.

Fuzileiros navais americanos explodindo casamatas e túneis usados pelo Viet Cong em uma vila, 1966.

A questão surgiu já durante a presença soviética: aliás, quem estava lutando contra os insurgentes? Os soviéticos ou, em primeiro lugar, os não-muçulmanos que não têm lugar numa sociedade monocultural e que fará de tudo para permanecer assim? Os insurgentes talibãs, pelo menos nas áreas de maioria pashtun, são "como peixes na água"; basta olhar para os rostos consternados dos legisladores afegãos com a notícia da morte de Bin Laden.

Como os insurgentes vietnamitas, os talibãs não estão sozinhos; eles recebem o apoio de "brigadas internacionais" de muitos países muçulmanos e não-muçulmanos para travar a jihad.

Soldados do Exército Soviético na torre de um tanque em um posto avançado durante o pôr do sol no Afeganistão, setembro de 1984.
(Alexander Zemlianichenko / AP)

Eles são apoiados por um grande número de órgãos oficiais do Paquistão que consideram o Afeganistão como seu quintal. O papel desempenhado pelos paquistaneses é um andaime muito elaborado de astúcia; eles desempenharão admiravelmente a figura de aliados objetivos e prestativos dos americanos, enquanto secretamente apóiam os insurgentes, fato o qual os Estados Unidos estavam bem cientes. Quem poderia imaginar por um segundo que o governo de Karachi não sabia da presença de Bin Laden em seu território? Além disso, existem poucas fronteiras tão porosas como aquela que pretende separar o Afeganistão do Paquistão.

Finalmente, outro elemento fundamental, o custo da guerra; para combater os efeitos dos artefatos explosivos caseiros, fabricados com algumas dezenas de dólares, são usados materiais cujo custo gira em torno de dezenas de milhares de dólares.


Concluir ou observar?


Um soldado alemão do Bundeswehr com a ISAF monitora a área em uma montanha durante uma missão de varredura com uma equipe de Descarte de Material Explosivo (Explosive Ordnance Disposal, EOD) nos arredores de Fayzabad, ao norte de Cabul, Afeganistão, em 20 de setembro de 2008.

Observar primeiro que no Afeganistão, talvez mais do que no Vietnã, é uma questão de fracasso na ausência de uma derrota e, no caso do Afeganistão, de uma derrota do Ocidente diante de outra civilização completamente diferente.

No Vietnã, como no Afeganistão e na Somália, é a derrota de um Golias longe das suas bases perante uma população cada vez mais hostil que, apesar de todas as suas tentativas, nunca poderá seduzir, primeiro porque ela o vê como um estrangeiro". Tampouco será possível instituir um regime de "boa governança" capaz de conquistar o apoio da população; eles sempre serão regimes corruptos e ineficientes odiados pelo povo.

Nessas duas guerras, uma grande parte do país, essencialmente rural, sempre terá que ser deixada para os "insurgentes" que, como a FLN na Argélia, estão fazendo reinar o terror implacável entre a população civil.

Trailer do filme A Batalha de Argel


Quem poderia negar que este é um exemplo convincente do choque de civilizações segundo a visão de Samuel Huntington? Seja o comunismo ateísta dos "prussianos asiáticos" do Vietnã do Norte ou o islamismo fanático do talibãs afegãos, o inimigo do Ocidente nunca duvidará da vitória, não importa quão duros sejam os golpes; ele até mesmo rapidamente convencerá o vencedor no campo da inevitabilidade de sua derrota e, assim, infligirá uma ferida em seu moral da qual ele não se curará, mesmo depois que as hostilidades tiverem passado.

Um choque de civilizações é, claro, e antes de tudo, um choque de valores incompatíveis, uma visão do preço da vida, a sensação do tempo. André Malraux, visitando Mao Tsé-tung em 1965, perguntou-lhe se ele achava que o comunismo duraria na China; ouviu-se responder pelo seu interlocutor: "Oh não! Talvez 1.000 anos, não mais”.

A guerra é uma disciplina e uma arte em que a relação com a morte e o tempo é tão importante quanto o poder das armas e o valor puramente militar dos exércitos. Nem os americanos nem seus aliados no Vietnã ou no Afeganistão estavam preparados para lutar tanto quanto os "insurgentes"; tratava-se de bater forte e entrar rápido. Como disseram os presidentes Nixon e Trump, "bring the boys back home" ("traga os rapazes de volta para casa") especialmente porque as opiniões civis desses países não estavam prontas para pagar o pesado tributo do derramamento de sangue, como Charles de Gaulle em La France et son Armée (A França e seu Exército) falando de guerras distantes "Todos queriam voltar ao país para encontrar seu país".

Guerra bunkerizada: Um engenheiro de combate fuzileiro naval servindo na Companhia Bravo, 1º Batalhão de Engenharia de Combate, preenche uma barreira Hesco com terra que apoiará um portão de entrada para o Exército Nacional Afegão na Base Operacional Avançada Shir Ghazay, 19 de novembro de 2013.

Ainda são guerras que custaram somas colossais de dinheiro, bilhões de dólares para o Ocidente e primeiro para os Estados Unidos, menos para o inimigo. Os ocidentais colocaram toda a sua fé na deusa da alta tecnologia e no deus tecnicismo; eram guerras "bunkerizadas" com poucas pessoas no solo e muitas no ar, o oposto dos "insurgentes".

Nenhuma batalha clássica foi perdida no terreno, mas os custos continuaram a subir à medida que a perspectiva de vitória se tornava cada vez mais evasiva, apesar da perda desproporcional entre aliados e insurgentes.

Blindado norte-vietnamita, com a bandeira da FLN/Viet Cong, entrando pelo portão arrebentado do palácio presidencial de Saigon, 30 de abril de 1975.


Quando a guerra começa? Quando a guerra termina? Talvez, no final, uma guerra não precise começar para não parar, talvez também os ocidentais devam refletir sobre esse pensamento de um tenente-coronel do Corpo de Fuzileiros Navais dos Estados Unidos, depois do que seus compatriotas consideraram uma vitória, uma vez que Saddam Hussein foi derrubado, "War starts when it ends": a guerra começa quando acaba!


Pierre ORTIZ
  Capitã-de-Fragata (h)
  Correspondente da ASAF na Bélgica



Traduzido de: Enderi

Fonte:

Warfareblog



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