Uma breve consideração sobre o atirador policial de precisão.

atirador policial de precisão.

 

Uma breve consideração sobre o atirador policial de precisão.


Autor: Luiz Carlos Queiros Mariz
Agente de Polícia Federal
Chefe do Setor de Tiro de Precisão do COT/DPF


Os métodos e ferramentas disponíveis para a prática criminosa têm evoluído com impressionante rapidez desde o início do século XX. Mudanças comportamentais sociais também fizeram com que o uso da violência por parte dos criminosos, assim como o potencial ofensivo de suas ações para a sociedade, tenha aumentado. Problemas como o terrorismo e a tentativa de intimidação do Estado não fazem mais parte de uma exceção, e sim do dia-a-dia das instituições de Segurança Pública brasileiras. A disponibilidade de compra de armamentos de grosso calibre e alta capacidade de fogo no mercado paralelo, o acesso fácil e rápido a informações e comunicações e o incremento do poder aquisitivo dos criminosos (em razão da ampliação de seus negócios ilícitos, cada vez mais diversificados e vultosos) tem gerado dificuldades aos setores Estatais responsáveis pela prevenção e repressão da atividade criminosa. A cada dia são necessários novos e maiores investimentos do Estado na formação e treinamento dos seus agentes policiais, que se tornam cada vez mais especializados, utilizando equipamentos e conhecimentos específicos no combate ao crime e suas, hoje, inúmeras modalidades, dentre as quais estão as de altíssimo potencial ofensivo direto para a sociedade, que oferecem imenso risco de morte àqueles que se dedicam a combatê-las e também para aqueles que por infelicidade forem suas vítimas.

Entre as modalidades criminosas de alto poder ofensivo estão a extorsão mediante seqüestro, os assaltos a bancos, os atentados contra autoridades públicas (vividos recentemente pelo Estado de São Paulo), o roubo de cargas, os seqüestros de aeronaves civis para diversos fins (pouco comuns no Brasil, com histórico de três ocorrências até do dia de hoje), o tráfico internacional e interestadual de drogas, armas e pessoas dentre outras. Em praticamente todas estas modalidades há a observância do aumento da violência utilizada pelos criminosos, como uso de armamento militar de grosso calibre e alta capacidade de fogo, explosivos de alto poder de destruição e técnicas de guerrilha que praticamente impossibilitam a repressão por parte da polícia com a utilização de agentes com treinamento, equipamento e armamentos comuns. Os policiais que combatem estas modalidades criminosas tem hoje que utilizar técnicas, equipamentos e armas especiais que possibilitem a repressão dos delitos com maior eficiência e segurança para si e para a sociedade.

Dentre a gama de especialistas utilizados pelas polícias no combate ao crime, talvez os atiradores de precisão sejam os menos conhecidos, embora seu trabalho seja considerado de vital importância na preservação da vida de todos os indivíduos envolvidos neste tipo de atividade, sejam eles policiais, criminosos e até mesmo vítimas. São poucas as pessoas fora do meio policial ou militar especializados que conhecem as responsabilidades do atirador policial de precisão, seu processo de seleção e treinamento, seus equipamentos de trabalho, as inúmeras vantagens de sua utilização e as penosas conseqüências de seus erros. Mesmo no meio especializado, pouquíssima informação no idioma português está disponível, dificultando o esclarecimento dos conhecimentos básicos que devem ser dominados pelos profissionais que trabalham com tiro de precisão ou que o desejam fazer.

Esta dificuldade tem gerado problemas para unidades policiais especiais no sentido de conseguir investimentos que possibilitem a utilização de atiradores de precisão em nível profissional, pois a justificativa para o investimento solicitado não obedece a critérios técnicos que, para os comandantes e ordenadores de despesas públicas, justifiquem a aplicação de tais vultos.

Da mesma maneira, a falta de acesso à informação pertinente faz com que os profissionais de polícia dedicados ao tiro de precisão ou as unidades policiais especiais recorram a pessoas que tem no tiro esportivo sua escolha de lazer, geralmente atiradores esportivos de armas longas, o que faz com que se disseminem conhecimentos pouco práticos e incorretos para a atividade profissional de atirador de precisão. Não que exista preconceito, deste estudo, com aqueles que praticam a atividade esportiva ou de caça utilizando armamentos de precisão, porém estas atividades pouco têm a ver com a realidade do profissional de polícia e são enormes os prejuízos de tempo e dinheiro na formação do atirador profissional de precisão se a opção escolhida for se orientar pelos esportistas em questão.


A missão do atirador policial de precisão

É comum que a que uma pessoa pouco informada sobre o tema veja no atirador policial de precisão um indivíduo que tem como missão, apenas, abater alvos humanos em situações de crises com reféns. Porém, esta é apenas uma das missões executada na minoria das ocorrências policiais.

O atirador policial de precisão tem muitas missões e, algumas destas, serão abordadas, assim como suas peculiaridades no sentido de esclarecer a razão de sua existência e o porquê do rigor de sua seleção e treinamento, assim como da utilização de equipamentos específicos.

Primeiramente, é preciso entender que o termo “atirador policial de precisão” define uma função específica de um profissional integrante de um grupo que tem uma missão específica e age dentro de um contexto já definido por uma situação crítica que exige resposta especial por parte da polícia, a partir de agora denominado Grupo Tático. Portanto, qualquer pessoa que porte armamento de precisão fora do contexto de utilização de um Grupo Tático policial não pode ser chamada de atirador de precisão. O atirador policial de precisão é parte indissociável de um Grupo Tático, e age em conjunto com os demais profissionais integrantes deste grupo. As armas, técnicas e equipamentos especiais por ele utilizados, rigorosamente, dentro das normas e do contexto que regem os procedimentos adotados pelo grupo são permitidos pelo ordenamento jurídico vigente, de forma a potencializar sua eficiência reduzindo o grau de risco de morte de todos os indivíduos envolvidos em eventos criminosos de alto poder ofensivo, sejam eles policiais, criminosos ou demais integrantes da sociedade presentes ou próximos a estas situações de alto risco. Não há atirador policial de precisão sem Grupo Tático. O atirador policial de precisão deve obedecer, rigidamente, a uma cadeia de comando estabelecida e raramente pode disparar sem que receba ordem explícita para tal.

O atirador policial de precisão age, na maioria das vezes, como fonte de inteligência para os demais integrantes de seu Grupo Tático, gerando informações em tempo real do que acontece no interior de cenários de crises ou teatro de operações, orientando seus comandantes quanto ao planejamento de ações táticas, direcionando negociações, estabelecendo rotas de aproximação e evacuação de eventos críticos. Também é sua responsabilidade evitar que policiais ou transeuntes sejam feridos por criminosos quando do desencadeamento de uma operação policial de alto risco, assim como proteger autoridades estrangeiras ou nacionais da ação de criminosos ou terroristas franco-atiradores (no caso dos atiradores da Polícia Federal). Pode ser utilizado para fazer levantamentos de informações ou reconhecimentos de locais e edificações utilizados por criminosos ou terroristas, utilizando-se de técnicas e equipamentos especiais. É de suas missões neutralizar imediatamente qualquer ameaça à vida de vítimas de criminosos em eventos de crise ou durante operações de alto risco. Por ser um especialista em armas e munições, cabe ao atirador policial de precisão avaliar e testar novos equipamentos, armamentos e munições disponíveis para a compra institucional.

Como é possível compreender, são muitas as responsabilidades do atirador policial de precisão e faz-se necessária uma rápida diferenciação de suas atribuições em relação às atribuições dos atiradores militares de precisão, uma vez que diferentes missões necessitam de diferentes equipamentos, procedimentos e técnicas e conforme será visto mais adiante, nem sempre os requisitos de seleção, equipagem e treinamento podem ser os mesmos, sob pena de comprometimento legal da utilização destes recursos especiais.


Atiradores Militares de Precisão

Considerando serem integrantes das Forças Armadas de um país o Exército, a Marinha e a Aeronáutica, os atiradores militares de precisão tem como missão abater alvos pré-determinados ou de oportunidade, geralmente altos oficiais de exércitos inimigos, ou militares que portam armas que ofereçam riscos ao avanço de sua tropa (bazucas, mísseis portáteis ou minas, por exemplo). Podem ser utilizados também para destruir recursos materiais importantes em tempos de guerra, como estações portáteis de rádio e veículos de suprimentos. Muitas vezes são utilizados para deter o avanço de tropas inimigas, abatendo indiscriminadamente qualquer combatente inimigo que estiver sob sua mira, dando preferência aos hierarquicamente mais graduados, implantando o terror na tropa adversária, ou seja, tendo como alvos prioritários os uniformes inimigos.

São normalmente empregados em tempos bélicos e obedecem apenas a leis e tratados internacionais de guerra, e tem autorização para decidir quais alvos escolher e quando atuar. Como geralmente atuam dentro do território inimigo, devem ter grande autonomia de suprimentos, pois podem ficar dias sem qualquer oportunidade de receber suprimentos. Trabalham em duplas e isto facilita sua progressão e evasão, indetectáveis pela tropa inimiga.

Como necessitam evacuar rapidamente o posto tiro após o cumprimento da missão, evitar a artilharia e tropas inimigas em seu encalço, atiram de grandes distâncias para aumentar sua chance de fuga e para isso usam munições e aparelhos óticos de pontaria que permitem disparar com precisão a distâncias maiores, e tem como cenário preferido de atuação áreas rurais, pois aumentam a capacidade de camuflagem e facilitam a retração e extração. Neste caso, o zero de suas armas (coincidência entre o ponto de visada e o ponto de impacto) é regulado a partir de trezentos metros.

Pela natureza da missão e distâncias de seus alvos, não necessitam de disparos de incapacitação instantânea (conceito a ser expandido mais adiante). Em grande parte de suas missões, o ponto de impacto do projétil no alvo não é fator restritivo, desde que o alvo ou recurso a ser atingido seja neutralizado.

Por exercerem atividades em território hostil, sem apoio amigo de suprimentos e expostos a intempéries diversas, necessitam de equipamentos que suportem os castigos impostos pelo clima e pelo uso em condições de rusticidade, que sejam simples de operar e de fácil manutenção.

Apesar de atuarem a grandes distâncias, os atiradores militares não tem no tempo de exposição dos seus alvos um fator crítico, atiram muitas vezes no momento de sua escolha, podendo coordenar os fundamentos do tiro de precisão, uma vez que estarão, até o momento do tiro, despercebidos pelo inimigo.


Atiradores Policiais de Precisão

São policiais os integrantes de forças regulares de Segurança Pública, sejam elas Militares, Civis ou Federais. Estes profissionais são utilizados toda vez que um Grupo Tático é chamado para resolver situações de alto risco. Suas missões envolvem o levantamento de informações, transmissão de inteligência em tempo real em situações de crise com reféns e a neutralização de ameaças iminentes à vida de quaisquer pessoas envolvidas em seu cenário de atuação, entre outras. É parte integrante do sistema de resposta a crises ou de uma unidade tática e trabalha em conjunto com os demais componentes do grupo a que pertence. Obedece a uma cadeia de comando hierárquica e sua atuação está limitada ao ordenamento jurídico vigente, pois deverá justificar suas ações a autoridades judiciárias. Precisa da identificação positiva de seus alvos e não está autorizado a abater alvos de oportunidade. Na grande maioria dos casos não tem autonomia para atirar sem autorização prévia de seus superiores.

Como trabalha na maior parte do tempo em áreas urbanas (mas pode ter que atuar em áreas rurais quando necessário), e dentro de um contexto legal estabelecido, não precisa retrair-se com velocidade do posto de tiro e geralmente suas distâncias de atuação são bem curtas quando comparadas às distâncias enfrentadas pelos atiradores de precisão militares. Podem contar com apoio de suprimento com mais facilidade que os militares, apesar de também serem obrigados a ter grande autonomia de recursos, pois nem sempre será possível, a eles, enviar apoio.

Mesmo com distâncias mais curtas, tem no tempo de exposição de seus alvos um fator crítico, pois a oportunidade para o disparo certeiro será dada pelo oponente e geralmente não durará mais que um e meio segundo. O atirador policial de precisão necessita de disparos de incapacitação instantânea de seus oponentes e, portanto, o ponto de impacto de seus projéteis é fundamental. Deverá ser muito preciso, em um curto espaço de tempo disponível.

Devido a características de sua missão, seu equipamento deve ser de altíssima precisão e ter recursos que possibilitem sua utilização diuturna, e em condições de estresse e fadiga. São grandes as dificuldades enfrentadas pelo atirador policial de precisão quanto à estabilização de seu armamento, uma vez que as situações enfrentadas são de uma diversidade incalculável e talvez seja necessário permanecer por muito tempo em posições extremamente desconfortáveis ou ter que efetuar um disparo imediatamente após ter subido doze lances de escada em alta velocidade. O equipamento deve obrigatoriamente permitir ajustes finíssimos, a fim de possibilitar disparos precisos em posições de tiro variadas, fora do seu tempo correto de respiração e com a freqüência cardíaca elevada.

Pode trabalhar em duplas (condição ideal) ou sozinho, dependendo da disponibilidade de pessoal ou da característica da missão. Em um cenário de crise com reféns serão sempre os primeiros de equipe de resposta a chegar e os últimos a sair.

A necessidade por precisão absoluta em condições muitas vezes adversas faz com que o armamento do atirador policial de precisão seja de utilização estritamente pessoal e é proibitivo que dois atiradores do mesmo grupo, mesmo usando equipamentos idênticos, compartilhem armas no revezamento de suas funções.

As munições utilizadas pelos atiradores policiais devem ser de alta qualidade e permitir elevados níveis de precisão a distâncias mais curtas (nem sempre munições precisas a longas distâncias são precisas a curtas distâncias e vice-versa), e o zero de suas armas geralmente é regulado a distâncias não superiores a cem metros.

Conforme visto rapidamente, apesar de ambos serem atiradores de precisão, policiais e militares tem missões completamente diferentes. Isso se traduz na vida prática em seleção e treinamento, conhecimento, equipamentos, armamentos, munições e procedimentos diferenciados, e serão tratados neste trabalho os aspectos relativos ao tiro de precisão policial, que muitas vezes tem pode se diferenciar absurdamente da doutrina e procedimentos militares, o que certamente não quer dizer que haja discordância com o excelente trabalho executado pelas Forças Armadas.

Ao longo deste trabalho, serão apresentados três elementos básicos que classificam e diferenciam os atiradores policiais de precisão dos demais policiais que compõem as equipes de um Grupo Tático: a) o homem, adequadamente selecionado e treinado; b) o sistema de armas de precisão; c) a munição de precisão.

Cabe ressaltar que qualquer um destes três elementos é fundamental para que a atividade do atirador policial de precisão seja desempenhada adequadamente. A ausência de um dos elementos impossibilita por completo a execução desta atividade especializada, e pode levar situações de alto risco a desfechos trágicos, manchando para sempre o nome de uma corporação, ou até mesmo de um país.

Dentre os elementos básicos da atividade de atirador policial de precisão a seleção do profissional que desempenhará tal função talvez seja o critério mais importante. Escolher, dentre os integrantes de um Grupo Tático aqueles que irão se preparar para desempenhar este papel é um trabalho criterioso que deve obedecer a requisitos doutrinários rígidos e não deve jamais ser pautado em indicações políticas, ou de caráter pessoal, e precisa ser executado sem pressa, sob pena de levar à ruína todo o Grupo Tático e conseqüentemente a Instituição a que está subordinado.

O candidato a atirador de precisão deve, obrigatoriamente, ser integrante operacional do Grupo Tático por um tempo não inferior a dois anos e ter participado, neste período, de operações de alto risco, assim como ter realizado todos os treinamentos a que seu grupo de assalto tático tenha sido submetido. As razões para isso são simples. O atirador de precisão deve conhecer profundamente os procedimentos operacionais de sua unidade, pois seu trabalho será desenvolvido em conjunto com sua equipe e sempre que necessário será convocado para integrar as equipes de assalto tático. Muitos dos requisitos necessários aos candidatos à função de atirador de precisão são subjetivos e não podem ser mensurados sem uma longa avaliação do desempenho profissional do policial. Ao tornar-se um integrante de um Grupo Tático, o policial assume compromissos que os demais policiais de sua corporação não são obrigados a assumir, e estes compromissos são fundamentais para o cumprimento de suas missões como atirador de precisão e esta é a principal razão pela qual não se admite, em nenhuma hipótese, que elementos estranhos aos quadros do Grupo Tático assumam o papel de atiradores de precisão. Todo o processo seletivo do candidato deve ser executado pelos integrantes mais antigos na função e deve levar em consideração as particularidades e necessidades do grupo.
São muitos os requisitos pessoais exigidos do candidato a atirador policial de precisão e a serem aqui enumerados, comentados, avaliados nos candidatos a esta função no na Polícia Federal brasileira, sem comentar os já avaliados quando da entrada do policial nos quadros operacionais do COT.


Características Desejáveis

O compromisso de matar
À primeira vista, e principalmente para leigos, este requisito pode parecer pouco técnico ou até mesmo inconveniente. Ao se dizer que um candidato a atirador policial de precisão precisa ter o compromisso de matar, não é lícita a afirmação de que ele deverá matar, ou que será avaliado por quantos alvos abateu. Nesta função é preciso deixar eufemismos de lado e dizer ao candidato que é possível que ele, em algum momento de sua carreira como atirador policial de precisão, tenha que matar alguém para garantir o direito à vida de uma outra pessoa, e que se houver hesitação quanto a este compromisso ele estará colocando seriamente em risco as vidas dos seus companheiros de trabalho e das pessoas que ele tem a missão constitucional de proteger.
Ao contrário do que se possa imaginar, não é vantagem para nenhum candidato o fato de ele já ter tirado a vida de alguém durante o cumprimento legal de suas missões anteriores, pois há outros fatores a serem levados em consideração.

Pouco emotivo
É preciso que o candidato a atirador policial de precisão seja um indivíduo pouco emotivo por natureza. Para executar a contento suas funções ele não deve ser o tipo de pessoa que se comove com facilidade. Isso não quer dizer frieza de sentimentos, mas um indivíduo pouco emotivo suporta por mais tempo grandes pressões e controla melhor seus sentimentos (raiva ou indignação, por exemplo), sem alterar sua capacidade operacional, além de ser menos suscetível a fenômenos psicológicos próprios de situações de crise, como a Síndrome de Estocolmo ou a Síndrome de Munique.
Pode-se dizer que matar alguém em legítima defesa pessoal é um ato que qualquer ser humano possa cometer, no calor de uma luta ou na iminência do risco pessoal. Porém, o atirador policial de precisão pode ter que matar um ser humano que sequer sabe que ele o tem sob mira e que não oferece nenhum risco à sua própria vida (mas de terceiros). Há casos reais em que atiradores de precisão hesitaram em neutralizarem criminosos quando receberam a ordem para tal porque criaram ligação afetiva com os mesmos depois de um longo período de observação (vide síndrome de Munique). O controle emocional é uma qualidade mais fácil de ser desenvolvida por indivíduos pouco emotivos.

Detalhista e capacidade para trabalhar em equipe
O atirador policial de precisão deve estar atento a muitos detalhes sutis, e um indivíduo que tem características pessoais pouco propensas a detalhes não deve exercer esta atividade.
Como o atirador de precisão policial trabalha em equipe, ele deve ter, também, um perfil psicológico favorável ao trabalho em equipe, pois dependerá disso o sucesso de suas missões. Apesar de trabalhar isolado do resto do grupo ou no máximo em dupla ele precisa direcionar o foco de seu trabalho para o resto do grupo. Deverá entender que suas necessidades pessoais nem sempre estarão de acordo com o que é melhor para a equipe e que sua satisfação depende do que é melhor para todos e não apenas para ele.

Inteligência acima da média
Hoje em dia, é de notório saber que inteligência é um conceito complexo e muito difícil de ser definido. Porém, o atirador de precisão deve possuir a capacidade de aprender coisas novas com facilidade e rapidez, deve poder executar várias atividades complexas ao mesmo tempo e ter a habilidade inata de adaptar-se, rapidamente, a novas condições. Ele terá que lidar com inúmeras variáveis e executar cálculos matemáticos com freqüência, assim como operar equipamentos e armamentos sofisticados e se comunicar com clareza e objetividade. Deve ser um indivíduo que possua alta capacidade de concentração por longos períodos, muitas vezes em situações pouco confortáveis e extremamente cansativas e não pode ser um indivíduo dispersivo. É necessário que o atirador tenha a capacidade de comunicar-se com facilidade e concisão, transmitindo informações com precisão, no menor tempo possível.

Excelente memória e excelente condição física
O atirador de precisão policial tem como missão básica servir de fonte de inteligência e deve ter alta capacidade de retenção de memória, pois na grande maioria dos casos os elementos que deve observar ficarão à disposição dele por um tempo muito curto. Como a identificação positiva de um alvo é fundamental, ele deve possuir uma excelente capacidade de retenção de fisionomias e isto é particularmente importante em crises com reféns. Claro que a memória é uma qualidade que pode ser treinada e melhorada com exercícios específicos, porém, uma predisposição inata ajuda muito quando se trabalha sob extrema pressão e fadiga.
Não é preciso dizer o porquê de uma excelente condição física ser essencial para um profissional que trabalha sob altíssimas pressões, permanece por horas em posições desconfortáveis, tem que alcançar, com rapidez, locais de difícil acesso. E precisa ainda manter altos níveis de concentração.
A condição física excelente ajuda o atirador de precisão a suportar as condições estressantes a que é submetido e permite manter sua capacidade de julgamento mesmo quando estiver sob fadiga. Permite também acessar locais de difícil acesso (terraços ou telhados de prédios, locais distantes, cursos d’água…), carregando o peso de seu equipamento e ainda permanecer em condições de combate. Ajuda também a suportar intempéries e a manter seu sistema imunológico forte. Enfim, são inúmeras as vantagens da boa condição física para a saúde humana, mas para o atirador de precisão ela é essencial.

Atirador acima da média e com boa visão
Conforme veremos mais adiante, atirar com precisão, consistentemente, depende de uma série de fatores. Os níveis de precisão exigidos pela função de atirador de precisão são altos e nem todas as pessoas, mesmo com treinamento, são capazes de atingí-los. Os candidatos a atiradores devem ser policiais com habilidades relacionadas a armas de fogo acima da média, e devem poder operar qualquer tipo de armamento com desenvoltura e facilidade.
Devem também possuir excelente visão, mesmo que corrigida. Indivíduos com problemas de visão como o daltonismo ou estrabismo devem ser eliminados da seleção. Não há qualquer problema quanto ao uso de óculos ou lentes de contato por parte de atiradores de precisão policial, desde que consigam níveis de acuidade visual compatíveis com a função, ou seja, 20/20.
Alguns autores impõem restrições quanto ao uso de óculos ou lentes de contato por parte dos atiradores sob pretexto de que podem ser perdidos ou quebrados. Porém, entendemos que desde os cuidados neste sentido sejam tomados pelo atirador (óculos ou lentes sobressalentes, por exemplo) não há restrição quanto ao uso, desde que atingidos os níveis mínimos de acuidade visual.

Indivíduo sem vícios
O ideal é que atiradores de precisão não tenham vícios. Indivíduos alcoólatras ou fumantes inveterados devem ser eliminados no processo seletivo. Claro que a abstinência do fumo ou do álcool aumenta o nível de ansiedade e gera reações fisiológicas incompatíveis com a atividade de tiro de precisão policial. É possível que o atirador tenha que ficar por horas, ou até mesmo dias, posicionado em um mesmo ponto sem ser detectado e concentrado em nas atividades que esteja realizando, e por isso não é aconselhável que pessoas dependentes de quaisquer substâncias químicas exerçam esta atividade.
No caso do álcool a questão é particularmente mais séria. Situações de crise podem ocorrer a qualquer momento e o atirador pode ser chamado a atuar, mesmo se estiver em seus horários de folga, portanto, aqueles que têm o hábito de consumir bebidas alcoólicas em grande quantidade e com freqüência estarão com sua capacidade operacional comprometida caso venham a ser chamados nesta situação. É claro que o consumo moderado de álcool em nada prejudica o exercício da função de atirador de precisão, desde que policial não esteja sob seu efeito quando de sua convocação para o serviço.

Motivação, iniciativa, disciplina, bom senso e paciência
O atirador policial de precisão deve ser um indivíduo que necessita de nenhuma ou pouquíssima supervisão. Sua rotina diária é desgastante e muito mais intensa que a rotina dos demais integrantes de seu Grupo Tático. Ele deve treinar com os demais integrantes e, além disso, executar seus treinamentos, testes e missões específicos. Normalmente, enquanto os demais companheiros dele estarão descansando, ele estará realizando treinamentos, testes e estudos visando aprimorar sua capacidade de atirar com precisão.
Para isso precisa ser um indivíduo altamente motivado e disciplinado. Deve gostar naturalmente do que faz e não deve precisar que ninguém o cobre atribuições. Tem de tomar a iniciativa de resolver problemas sozinho, pois estes aparecerão com freqüência em sua vida profissional.
Dentre as características desejáveis a um atirador de precisão, talvez, o bom senso e a paciência sejam as mais difíceis de detectar, definir ou avaliar. 

O que seria bom senso para alguns não se enquadra na definição de outros. Algumas pessoas dizem ter paciência para cumprir determinadas atividades e não ter nenhuma paciência para outras. Ocorre que nem sempre o atirador de precisão poderá escolher as atividades que vai desempenhar, e, algumas vezes, elas realmente são extremamente desagradáveis e monótonas. Porém, assim como o bom senso, a paciência é uma qualidade difícil de ser definida, porém, extremamente fácil de ser detectada quando não faz parte das qualidades pessoais de alguém. É fácil identificar aquelas pessoas naturalmente impacientes ou desprovidas de bom senso.


Esta é uma das razões do porque apenas integrantes de grupos táticos com algum tempo de serviço podem candidatar-se a ocupar uma vaga na equipe de atiradores de precisão. Com o tempo é possível avaliar estes quesitos, mesmo os mais subjetivos, e como já foi dito anteriormente, não pode haver pressa quanto aos critérios de seleção.
Até agora listamos algumas características pessoais desejáveis em candidatos a atiradores policiais de precisão, porém, a busca também se estende a algumas características indesejáveis que podem ser facilmente detectadas em candidatos a ocupar esta função.

Características Indesejáveis

Indivíduo preguiçoso e/ou indisciplinado
São grandes as responsabilidades da rotina cotidiana de um atirador de precisão. A carga de trabalho geralmente é muito maior que a dos demais integrantes da unidade tática a que pertence, e ele precisa estar sempre atualizado em relação a novas técnicas e equipamentos e mesmo com sua própria doutrina de trabalho. Pessoas naturalmente indisciplinadas terão muita dificuldade em se organizar adequadamente a fim de conseguir cumprir tais rotinas com êxito, o que coloca em risco o trabalho de todo o grupo. Pessoas preguiçosas tendem a negligenciar tarefas monótonas e pouco interessantes, fundamentais para a manutenção do nível de excelência de um atirador policial de precisão, e por isso é restritiva sua aprovação em processo seletivo para esta função.

Indivíduo inseguro
A insegurança é um fator psicológico que pode gerar aumento de ansiedade e conseqüentemente facilitar a perda de controle emocional de um indivíduo exposto a uma atividade naturalmente estressante e desgastante, tanto física, quanto emocionalmente. É difícil para uma pessoa insegura transmitir segurança aos demais companheiros de trabalho quanto à eficiência de suas habilidades. É preciso que todo o grupo acredite plenamente nas capacidades do atirador de precisão, pois suas vidas muitas vezes dependerão dele, portanto, é primordial que o próprio atirador tenha confiança no treinamento, cálculos e condição, dele, de desempenhar tarefas com êxito, assim como ter o conhecimento dos limites que possui, sabendo exatamente aquilo que tem ou não condições de fazer. Infelizmente, esta atividade não permite erros de qualquer natureza, pois vidas humanas estão em jogo. A confiança do atirador de precisão deve ser proporcional à exata medida das reais capacidades que possui, pois seu excesso também pode levá-lo a tentar executar tarefas que vão além de suas habilidades, provocando resultados trágicos.

Indivíduo em busca de status
Por ser uma atividade especializada que exige o cumprimento de rigorosos critérios de seleção e treinamento, muitos indivíduos se interessam em ingressar em equipes de atiradores de precisão para satisfazer sua própria vaidade e interesses pessoais. Pessoas com este perfil psicológico são talvez as mais desaconselhadas a ocupar a função, pois tem necessidade constante de se destacar pessoalmente, de “brilhar” perante a mídia, e este comportamento certamente pouco tem a ver com o trabalho de equipe desempenhado pelo atirador de precisão, e pode prejudicar o bom desempenho do grupo e colocar em risco as vidas daqueles que temos a missão de proteger.


O treinamento

Uma vez selecionado o profissional detentor dos requisitos psicológicos necessários à atividade de atirador de precisão, o próximo passo é investir em sua formação técnica e em seu treinamento correto e constante.

Apesar de ainda não haver legislação específica que delimite currículo mínimo e pré-requisitos para cursos de formação de atiradores policiais de precisão, o COT, Polícia Federal, tem estipulado, por norma interna, quais são os requisitos básicos de formação de atiradores em cursos ministrados pela Instituição para seus próprios integrantes ou para integrantes de forças amigas congêneres.

Podem ser listados os objetivos específicos mínimos que os estudantes de tiro de precisão policial devem atingir quando de sua passagem por curso de formação:


Objetivos do Curso

Ao término do curso o aluno deverá estar capacitado para:

  1. Identificar e descrever sistemas de armamentos de precisão;
  2. descrever as funções e o papel do atirador policial de precisão;
  3. conhecer os requisitos de seleção e treinamento do APP;
  4. diferenciar atiradores policiais de precisão de atiradores militares de precisão;
  5. conhecer e descrever os equipamentos necessários à execução da função de atirador policial de precisão;
  6. conhecer os fundamentos jurídicos que suportam a atividade do atirador policial de precisão;
  7. entender os procedimentos de segurança e limitações de utilização do atirador policial de precisão;
  8. operar com 100% de eficiência aparelhos óticos de pontaria;
  9. manter, portar e transportar adequadamente sistemas de armamentos de precisão;
  10. compreender fundamentos de balística interna pertinentes ao tiro de precisão;
  11. Compreender fundamentos de balística externa pertinentes ao tiro de precisão.
  12. compreender fundamentos de balística terminal pertinentes ao tiro de precisão policial;
  13. avaliar e compensar variáveis essenciais para o tiro de precisão;
  14. dominar técnicas de engajamento de alvos móveis;
  15. planejar e executar operações policiais noturnas e em condições de baixa luminosidade com a utilização de AP;
  16. dominar técnicas de camuflagem e ocultação, assim como a construção de esconderijos e plataformas de tiro com a utilização de meios de fortuna;
  17. dominar os fundamentos da progressão e navegação diurna e noturna em área hostil;
  18. elaborar tabelas balísticas e livros de dados para tiro de precisão;
  19. confeccionar relatórios de inteligência e transmitir inteligência em tempo real;
  20. dominar conceitos básicos de Comando e Controle;
  21. executar operações policiais de Segurança de Dignitários;
  22. conhecer, descrever e desempenhar a atividade de atirador policial de precisão em situações de crise;
  23. executar disparos de precisão a distâncias conhecidas de até seiscentos metros;
  24. executar disparos de precisão a distâncias desconhecidas de até seiscentos metros;
  25. executar disparos de incapacitação instantânea em alvos com exposição limitada;
  26. executar disparos de precisão sob comando;
  27. executar disparos de precisão sob diversas condições de estresse;
  28. executar disparos de precisão em alvos móveis;
  29. executar disparos de precisão em alvos múltiplos;
  30. executar disparos de precisão em alvo selecionados;
  31. executar disparos de precisão em posições variadas de tiro;
  32. executar disparos de precisão sob condições de extrema fadiga;
  33. elaborar estudos de caso e relatórios estatísticos a fim de aprimorar a utilização e atuação dos APP;
  34. dominar técnicas de filmagem e fotografia operacional assim como a transmissão de dados por diversos meios.

É importante ressaltar que estes são os conhecimentos mínimos necessários ao atirador policial de precisão, que no Comando de Operações Táticas ainda tem que permanecer estudando e sendo supervisionado por atiradores já formados, por um período mínimo de três a quatro anos antes de ser considerado apto a integrar o quadro operacional. O curso de formação dará ao candidato apenas o instrumental técnico mínimo necessário para o início da formação, não habilitando em nenhuma hipótese qualquer policial a exercer esta atividade.

Após sua formação inicial, o atirador permanecerá treinando com a equipe de atiradores até que suas habilidades atinjam o nível necessário para que integre os quadros da equipe em definitivo. Todos os alvos das atividades de treinamento serão datados e assinados por ele e pelo instrutor responsável (embora este seja um procedimento padrão para toda a equipe de atiradores profissionais de precisão do COT), e também os estudos e textos produzidos por ele produzidos, bem como as pesquisas e testes efetuados para que possa ser avaliado de maneira consistente e justa, seja aproveitado pelos demais integrantes e sirva de instrumento de prova judicial de sua habilitação para o cumprimento das missões em que for designado.

Apenas com a concordância da chefia e membros da equipe de atiradores e do coordenador do Grupo Tático pode o candidato incorporar oficialmente o grupo como atirador policial de precisão. Cada unidade tática deve estabelecer seus parâmetros de seleção e qualificação profissionais, e os parâmetros aqui relatados são os do Departamento de Polícia Federal.

Por ser uma atividade multidisciplinar, em que alguns conhecimentos em áreas de ciências exatas e humanas serão ministrados com profundidade, é exigido ainda que os candidatos tenham no mínimo formação superior completa.

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Artigo extraído do trabalho de conclusão de curso do XIV Curso Especial de Polícia, monografia produzida em conjunto com o APF Douglas A. de Andrade.



Fonte:

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