MBT E O EFEITO JACK-IN-THE-BOX


 

MBT E O EFEITO JACK-IN-THE-BOX


Por: Russo Mike

Prólogo: temos sempre que ter em mente, que a doutrina em torno da qual um armamento foi projetado, frequentemente não é a que foi empregado, quando apresenta falhas catastróficas.

O efeito jack-in-the-box, também conhecido como “o pulo do palhaço”, ocorre quando a torre de um blindado, principalmente carros de combate (MBT- Main Battle Tank), é “ejetada” do chassis do veículo, devido forte explosão interna, resultado da detonação das munições armazenadas internamente, geralmente quando o blindado é perfurado por munição inimiga, porém também pode ocorrer devido a acidentes com a tripulação.

FeminineCheeryBittern-max-1mb
Efeito jack-in-the-box num carro de combate, após ser atingido por carga HEAT
______________________

Porém antes do texto, quero te apresentar um de nossos produtos:
O Guia do Atirador!  


"Afinal, isso aqui não é um blog comunista." 


Você já pensou em ter sua CR (Certificado de Registro)?

Com o Guia do Atirador, você terá um passo a passo para solicitar seu CR junto ao Exército Brasileiro sem necessidade de contratar despachantes caros.


Clica na imagem e solicite seu manual!






______________________



A detonação das munições armazenadas internamente, frequentemente causam a morte imediata da tripulação, embora tenha havido casos onde a tripulação conseguiu sair do veículo antes da detonação, assim como nem sempre essa detonação resulta no efeito jack-in-the-box, uma vez que o efeito da explosão pode ser minimizado pelas escotilhas abertas, ou mesmo por estar transportando poucas munições, no entanto, sempre resulta na destruição catastrófica do blindado, impossibilitando a recuperação do veículo, uma vez que ocorre a destruição de todo o interior do veículo.

Esse efeito é observado desde a 1° guerra mundial, com a introdução dos veículos blindados em combate, geralmente compensado com o aumento gradual da blindagem, uma vez que o objetivo da blindagem em si, é proteger a tripulação e consequentemente as munições armazenadas internamente, para que as mesmas não acabem atingidas e matem a tripulação.

PicsArt_03-02-11.21.43
3 casos onde ocorreram o efeito jack-in-the-box e a destruição catastrófica do blindado durante a 2° guerra mundial: em cima, T34 soviético; no meio, M4 Sherman americano; embaixo, Panzer IV nazista.

Em dado momento, ficou evidente que o peso de blindagens mais espessas, iriam inviabilizar os projetos de carros de combate, mesmo com blindagem mais moderna, enquanto as munições anti-carro(KE e HEAT) estavam cada vez mais capazes. A partir desse ponto, diferentes países adotaram soluções variadas para o problema.

PicsArt_03-03-12.08.07.png
Os anos 60 viram a última geração dos “Heavy Tanks”, uma vez que aumentar mais a blindagem para aumentar sua proteção, iria inviabilizar o uso prático desses veículos em combate. Em cima o M103 americano, no meio o IS10 soviético e embaixo o conqueror Britânico.

Das maiores dificuldades, geralmente saem as soluções mais exóticas, então, após a desesperada guerra dos 6 dias, em 1967, Israel percebeu a limitação dos blindados convencionais, e principalmente as suas próprias dificuldades para se manter numa guerra prolongada contra os numerosos inimigos que o cercavam, especialmente a escassez de efetivo e dificuldade na reposição de equipamentos pesados, resultando em 2 desenvolvimentos principais para as forças terrestres.


PicsArt_03-03-01.47.28.png
Em cima, um Centurion de Israel, vítima do efeito jack-in-the-box durante a guerra dos 6 dias. Em baixo, um Heavy Tank IS3M do Egito, também vítima do efeito jack-in-the-box no mesmo conflito. Blindagem mais pesada não era mais garantia de sobrevivência.

Israel iniciou o desenvolvimento de seu próprio Carro da Combate, que também acabou fortemente influenciado pelo conflito seguinte, a guerra do Yom Kippur em 1973, e viria se tornar o Merkava, em uso a partir de 1979. 

O Merkava é um Carro de Combate com layout exótico, onde o compartilhamento do motor fica na parte da frente do chassis, ajudando a aumentar a proteção frontal do blindado, mesmo que em detrimento da maior mobilidade proporcionada pelo motor traseiro, enquanto na parte traseira do chassis têm um compartimento com uma porta voltada para trás, onde ficam armazenadas a maior parte das munições, porém uma pequena quantidade de munições ainda ficava armazenada junto a tripulação na torre para pronto emprego, 4 num cesto horizontal giratório e 4 em pé ao redor da torre.

PicsArt_03-03-12.44.32.png
Em cima, a primeira geração do merkava. Em baixo, mecânicos fazendo manutenção no motor do merkava, posicionado transversalmente na parte da frente do blindado, aumenta a proteção principalmente contra cargas HEAT.

Esse compartimento traseiro do merkava, foi um esforço de engenharia de Israel para resolver várias demandas de suas forças no combate.

A primeira, é certamente poder transportar as munições numa posição mais protegida, do que em Carros de Combate de gerações anteriores.

 A segunda é que, a porta traseira de acesso ao compartimento de munições, favorece muito a doutrina defensiva de Israel, onde o blindado pode se manter em posição de combate, enquanto é reabastecido de munições, sem expôr as tripulações e equipes de remuniciamento, como ocorre em outros blindados onde precisam remuniciar pelas escotilhas no topo da torre.

 A terceira é que, no caso de um dos carros de combate ser danificado e não possa ser removido, seus 4 tripulantes poderiam ser facilmente resgatado por outro veículo que já estiver sem munições no compartimento, assim como para resgate médico, onde pode acomodar até 3 macas. 

A última, que é frequentemente citado como o motivo do desenvolvimento desse layout por Israel, embora não seja o maior motivo real, é a possibilidade de levar um pequeno grupo de infantaria, com 4 soldados totalmente equipados, nesse compartimento, principalmente para combate urbano.


PicsArt_03-03-12.58.50.png
A esquerda, demonstrando a facilidade de realizar a recarga de munições para o merkava, pela porta traseira. A direita, mostra a dificuldade de recarregar as munições pelas escotilhas no topo da torre, em blindados com layout tradicional.
20190304_141450
Compartimento traseiro de munições do merkava, sendo utilizado para transporte de infantaria.

Paralelamente, a partir de 1967, Israel também se aprofundou no desenvolvimento das blindagens reativas explosivas(ERA), e embora esse estudo tenha sido visto primeiro na URSS, a partir de 1949, ele já havia sido totalmente cancelado na década de 60 por uma série de razões, entre acidentes nos testes e a crença dos líderes soviéticos na blindagem de seus Carros de combate. 

A blindagem reativa explosiva consiste de uma carga de alto impacto explosivo entre duas placas de metal. No ataque com munição de energia cinética (KE), o explosivo detona e força as placas de metal se separarem, desviando e danificando o penetrador. Contra as munições de energia química (HEAT), as placas projetadas com a detonação, proporcionam um maior comprimento a ser perfurado pela carga. 

Esse tipo de blindagem aumentava a proteção, sem aumentar significativamente o peso dos blindados, e poderiam ser facilmente substituídas após terem sido danificadas. Já em 1978, Israel havia equipado muitos dos seus blindados de gerações anteriores com esses kits de blindagem reativa, que viram combate pela primeira vez em 1982, no Líbano.

Screenshot_2016-09-22-21-54-43_1

PicsArt_03-03-02.26.08.png
Em cima, o MBT Magach 6 (versão local do M60), de Israel, indo para o combate no Líbano em 82, exibindo a nova blindagem ERA. Em baixo, dois Magach 6 danificados durante a guerra do Líbano em 82, um deles sofreu o efeito jack-in-the-box.

A união soviética, que havia desenvolvido na década de 60 e início de 70, uma geração nova da carros de combate, com autoloader(carregador automático) situado logo abaixo da tripulação, também dentro da torre, percebeu com a guerra do Yom Kippur, onde o Egito usou os mais modernos armamentos da URSS, a vulnerabilidade das blindagens homogênea e espaçadas desses carros de combate, especialmente contra cargas de energia química (HEAT), tendo iniciado pesquisas com blindagens compostas, como também blindagem ERA, que foram usadas a partir de 1982.

AptCarefreeBarasingha-size_restricted
Autoloader dos blindados soviéticos, acabaram ficando com a fama de “fazedores de viúvas”.
PicsArt_03-03-02.24.55.png
Em cima, T62 com ERA de primeira geração. Em baixo, um MBT soviético com ERA vítima do efeito jack-in-the-box.

Enquanto ERA de primeira geração foi eficiente contra cargas HEAT e KE mais antigas, se mostrou pouco efetiva contra munições mais modernas, com carga HEAT em tandem, como também as munições de energia cinética APFSDS, levando ao desenvolvimento de ERA de 2° geração, consideravelmente mais pesados, sobrecarregando os projetos de carros de combate. 

A blindagem reativa explosiva também têm problemas, como: a manutenção e armazenamento mais complexa, devido se tratar de material explosivo; ciclo de vida relativamente curto; assim como limita o emprego em conjunto com a infantaria.


PicsArt_03-03-04.24.57_1_1
De cima para baixo: T72 destruído na guerra do golfo em 1991; T80 destruído no Chechênia em 1994; T90 destruído na Síria recentemente.

Os Estados Unidos da América, ciente da enorme disparidade numérica entre a OTAN e o pacto de Varsóvia, no fim dos anos 60, e diante de sua postura de liderança mundial, também baseou muitos de seus desenvolvimentos na guerra do Yom Kippur, como o famoso projeto do avião Stealth “Have Blue”, mas também seu principal carro de combate, após o fracasso do projeto conjunto com a Alemanha ocidental, no complexo MBT 70. 

Diante dessa defasagem na quantidade de equipamentos, e o quadro das manifestações internas anti guerra, devido ao alto número de mortos no Vietnã, os EUA tinham circunstâncias muito similares a de Israel, porém numa escala muito maior, e ainda com a necessidade de implementar doutrinas primordialmente ofensivas.

Os EUA então desenvolveram o M1 Abrams, que adotou uma pesada e moderna blindagem composta, num layout tradicional, com o motor na parte traseira para maior mobilidade, porém com um inovador modelo de armazenamento de todas as munições em compartimento blindado, na parte traseira da torre, projetado para detonar para cima e para fora, no caso das munições serem atingidas, protegendo a tripulação e reduzindo a probabilidade de danos estruturais no chassis, de modo que pudesse ser facilmente recuperado em campo.

ggkbbuuj7gs01.gif
Processo de carregamento da munição no M1 Abrams, mostrando o compartimento de munições e sua proteção blindada.
PeacefulDarlingCapybara-size_restricted
O M1 Abrams é atingido por munição inimiga, e as munições detonam, porém a explosão é direcionada para fora do blindado, sem atingir a parte interna da torre, permitindo a tripulação evadir do veículo, como é possível ver no GIF, de modo que não e possível ocorrer o efeito jack-in-the-box nele.

Apesar de receber muitas críticas do público em geral, o layout básico do Abrams têm sobrevivido bem nos últimos 40 anos, tanto em combate linear de alta intensidade, na guerra do golfo, como em combates irregulares, para os quais não foi planejado, a exemplo da ocupação do Iraque, onde mais de 500 Abrams danificados em diversos níveis, puderam ser recuperados e voltaram ao serviço ativo e nenhum sofreu o efeito jack-in-the-box, embora alguns tenham tido a torre arrancada ou sofrido destruição catastrófica por outros motivos, como IEDs(explosivos improvisados).

PicsArt_03-03-02.27.44.png
Este ocorrido é frequentemente usado por pessoal com pouco conhecimento técnico, ou mesmo de má fé, diante do lucrativo mercado de armamentos, para insinuar que o Abrams pode sofrer também o efeito jack-in-the-box,porém e evidente que essa torre não foi arrancada pela detonação interna de munições, primeiro porque o Abrams não armazena qualquer munição junto a tripulação, mas o ponto principal é que, pelo estado conservado da torre e pelo fato de compartimento de munições estar intacto, fica claro que a torre foi arrancada pela detonação de um IED embaixo do veículo.

Outros MBTs ocidentais de 3° geração, contemporâneos do Abrams, optaram por layout tradicional simples, apenas confiando em blindagens mais modernas e bastante espessas, como a blindagem composta Cobham. 

Alguns exemplos são, o Britânico Challenger 2, onde as munições ficam armazenadas totalmente dentro do casco, ou alemão Leopard 2 e o italiano Aríete, que tem a maior parte das munições armazenadas no casco, e uma pequena parte para pronto emprego, num compartimento na torre.

O Leopard 2, muito popular na mídia e com o público em geral, acabou mostrando sua maior fraqueza recentemente, quando foram usado pela Turquia na guerra da Síria, e após ser atingido, sofreu o efeito jack-in-the-box, com a detonação das munições armazenadas no casco, resultando na ejeção da torre e na destruição catastrófica do veículo.

O Challenger sempre foi notório por sua blindagem composta extremamente espessa e eficiente, seguindo a tradição britânica de priorizar a blindagem em detrimento da mobilidade, e só havendo um caso de perfuração dela em combate até hoje, quando um RPG29 conseguiu perfurar a blindagem do “peito” do Challenger 2 no Iraque, entretanto a maior parte da energia química da carga HEAT, foi diluída na espessa blindagem composta, com os estilhaços que penetraram no blindado causando apenas ferimentos leves no motorista, sem maiores danos ao veículo, que continuou em combate e posteriormente retornou a base por meios próprios.

Entretanto, em 2003 em Barsa, um Challenger 2 foi vítima de fogo amigo, com munição HESH disparada por outro Challenger britânico, ao tê-lo confundido com um inimigo, no momento em que parte da tripulação estava desembarcada e o blindado se encontrava com as escotilhas abertas, de modo que, ao ser atingido, estilhaços da explosão atingiram a parte interna da torre pelas escotilhas abertas e atingiram as munições armazenadas internamente, detonando as munições e causando o efeito jack-in-the-box, tendo morrido os 2 tripulantes que estavam a bordo do veículo, e os dois outros que estavam desembarcados próximos dele, ficaram apenas feridos. Este foi o único Challenger 2 a sofrer destruição catastrófica até hoje.


PicsArt_06-25-08.59.51
Em cima o Challenger 2 vítima do efeito jack-in-the-box, no detalhe o modo de armazenamento das munições na torre, dentro do chassi ao redor da tripulação; em baixo, Leopard 2 que sofreu o efeito jack-in-the-box na Síria recentemente, é possível ver que a explosão, além de “ejetar a torre”, arrancou a parte frontal do chassis, justamente onde fica armazenada parte das munições, como mostra a foto no detalhe.

Os MBTs Leclerc, da França, e Type 90, do Japão, desenvolvidos no final da década de 80, adotaram o layout de armazenamento das munições similar ao Abrams, porém utilizando um autoloader horizontal na parte traseira da torre, separado da tripulação por uma proteção blindada, diferente dos autoloader carrossel usados pelos soviéticos, que ficavam dentro da torre, logo abaixo da tripulação. 

Curiosamente, no final da década de 80 e início de 90, os soviéticos passaram a desenvolver projetos totalmente novos de carros de combate, diferentes do layout tradicional soviético, certamente influenciados pelas altas perdas materiais e humanas no conflito irregular do Afeganistão. 

Os soviéticos desenvolveram um layout similar ao do Abrams, mas com um autoloader horizontal na parte traseira da torre, como os seus contemporâneos, Leclerc e Type 90. 

Primeiro desenvolveram o projeto mais avançado, object 477 Hammer e, posteriormente, o object 640 Black Eagle, este último sobre o chassis do T80, o que levantou a hipótese de ser apenas um kit de modernização, porém com o fim da URSS e o declínio da Rússia na década de 90, nenhum dos dois projetos foi adiante.



PicsArt_03-03-09.33.17_1.png
Ilustrações do Type 90 japonês e do Leclerc francês, mostrando o armazenamento das munições no autoloader na parte traseira da torre.
PicsArt_03-03-09.34.15
Em cima, object 477 Hammer. Em baixo, object 640 Black Eagle.

Com a reestruturação da Rússia na última década, e após anos de perdas humanas e materiais em conflitos irregulares, como a Chechênia, os russos finalmente desenvolveram um novo MBT, fugindo do design tradicional soviético, onde a tripulação ficava junto com o autoloader dentro da torre, e desenvolveram no projeto Armata o carro de combate T14, onde a tripulação fica numa cápsula blindada na parte da frente do chassis, enquanto o autoloader fica no centro, logo abaixo da torre não tripulada, e o motor fica situado na parte traseira do chassis. 

Embora seja o primeiro MBT produzido em série com esse layout, o Armata T14 não foi o primeiro projeto do tipo, já que, na década de 80, os EUA estudaram o layout da tripulação em uma cápsula blindada no chassis com o autoloader no centro, logo abaixo da torre, no protótipo M1 TTB(Tank Test Bed), sobre o chassis do M1 Abrams. 

Entre os vários fatores que levaram os EUA a abandonar esse layout, agora adotado no Armata T14, o principal foi que, apesar da tripulação e o autoloader estarem mais protegidos no casco, onde pode concentrar a blindagem, além da silhueta baixa tornar essas partes críticas um alvo mais difícil de ser atingido, no caso do autoloader acabar sendo atingido e a munição detonar, mesmo a tripulação estando numa cápsula protegida, é altamente provável que o chassis sofra destruição catastrófica, inviabilizando a recuperação do veículo.


PicsArt_03-03-10.10.13
De cima para baixo: protótipo M1 TTB; detalhe das escotilhas da tripulação, logo a frente da torre, no M1 TTB; Armata T14; ilustração do T14, demonstrando a cápsula blindada para tripulação, logo a frente da torre, e o autoloader dentro do chassis, abaixo da torre.

O Merkava, apesar dos avanços do layout para uma doutrina essencialmente defensiva, que se mostrou eficiente especialmente contra RPG7 e ATGM AT 3 sagger, em ataques frontais, no Líbano em 82, acabou se mostrando vulnerável contra ações irregulares, quando alguns Merkavas MK I tiveram a blindagem lateral, ou a parte traseira da torre perfurada, e as munições armazenadas internamente(4 num cesto rotativo dentro da torre, 4 empilhadas ao redor da torre, ambos para pronto emprego, além das munições armazenadas na parte traseira do veículo) acabaram atingidas, resultando na detonação e no efeito jack-in-the-box, causando a destruição catastrófica do veículo.

PicsArt_03-03-10.37.55_1.png
3 Merkava que sofreram destruição catastrófica: Em cima é possível ver que a detonação das munições armazenadas internamente não resultou no efeito jack-in-the-box, pois as escotilhas estavam abertas e aliviaram a pressão da detonação. No meio, claramente o efeito jack-in-the-box. Em baixo, é possível ver o tamanho do estrago no chassis, causado pela detonação das munições no compartimento traseiro do merkava, que também causou o efeito jack-in-the-box, tendo lançado a torre longe.

Os iraelenses logo adotaram correntes de proteção contra RPG na parte traseira da torre e contêineres quádruplos, para armazenamento das munições na parte traseira do veículo, para minimizar a probabilidade de ocorrer o efeito jack-in-the-box, na versão MK II, a partir de 83, enquanto desenvolveram a blindagem composta modular adicional(o primeiro do tipo a entrar em operação) no merkava MK III, para aumentar a proteção contra múltiplos ataques e facilitar o reparo em campo, assim como contêineres individuais para todas as munições, a partir de 1989. 


Já no merkava IV, adotado a partir de 2004, transferiram as munições que ficavam na torre, para um sistema de armazenamento automático , ARMS (Automatic Rounds Magazine System), na parte traseira da torre, para proteger a munição e facilitar a escolha do tipo a ser empregado, entretanto o carregamento da arma continua sendo feito manualmente, além de ter aumentado a proteção das munições armazenadas na parte traseira do chassis.

 Mesmo com essas evoluções no design do Merkava, especialmente para lidar em conflitos irregulares, a guerra do Líbano em 2006, mostrou várias limitações dos Merkava MK III e MK IV contra cargas HEAT em tandem, como RPG29 Vampir, AT5 Konkurs, AT13 Metis-M e AT14 Kornet, onde 45% dos blindados atingidos por essas armas tiveram a blindagem perfurada



20190304_152310.gif
Munições para pronto emprego: no merkava MK III e anteriores, haviam 4 num cesto horizontal giratório dentro da torre e 4 verticalmente ao redor dela; no merkava MK IV, adotaram um armazenador rotativo para 10 municoes, na parte traseira da torre, com proteção blindada, chamado ARMS.

Logo Israel investiu fortemente no desenvolvimento dos sistemas de proteção ativa(APS) como esperança de dar sobrevida ao design do merkava contra ATGMs. 

APS do tipo Hard Kill, é um sistema de defesa computadorizado que detecta munições inimigas disparadas contra o blindado e reage com munição explosiva ou uma salva de pequenos projéteis, disparados contra a munição inimiga, a fim de detê-la ou desviá-la, antes de atingir a blindagem. 

Embora tenham sido os soviéticos os pioneiros no desenvolvimento dessa tecnologia, na década de 80 e 90, com os sistemas Drozd e Arena, não foi comprovada sua eficiência na ação soviética no Afeganistão ou as ações Russas na Chechênia, tendo sido Israel quem de fato implementou esse sistema em combate de modo comprovado, durante conflitos na faixa da Gaza em 2014, onde o APS Trophy dos Merkava MK IV-M derrotaram inclusive o ATGM(Anti Tank guided missile) AT14 kornet, de origem Russa.

PicsArt_03-03-11.04.09_1_1.png
Em cima e no detalhe, o APS Drozd; no meio o APS Arena; em baixo, o APS Trophy.
OldDeterminedGentoopenguin-size_restricted.gif
Demonstração de uma versão chinesa do APS Drozd, o GL-5, cujo os lançadores ficam voltados apenas para o arco frontal.
20190304_152218.gif
Demonstração do APS Arena contra RPG 7. Reparem que mesmo contra uma carga HEAT simples, colocaram uma espessa proteção ao lado do blindado e ainda assim é possível observar grande quantidade de estilhaços atingindo essa proteção. Provavelmente por esse motivo, ainda não foi provado em combate e, inclusive, a Rússia tem desenvolvido para o Armata um novo APS, o Afganit.
20190304_152032.gif
APS Trophy em combate real, Gaza 2014.

Atualmente, vários países apostam nos APS Hard Kill para reforçar a proteção dos seus MBT, porém os sistemas ativos também têm suas limitações, como: alto custo de aquisição e manutenção, já que é baseado em radares; enquanto, por ser baseado em radares, pode expor sua posição no campo de batalha ao inimigo, assim como sofrer interferência eletrônica, comprometendo sua eficiência e até mesmo tornando um risco para sua tripulação e tropas próximas; a capacidade de lidar com ataques na parte superior dos veículos ainda é uma incógnita, o que pode tornar o blindado vulnerável a ataques do alto de prédios e ATGM do tipo Top attack (detonam acima do veículo), dificultando a interceptação; além da possibilidade de ataques de saturação, que podem comprometer a capacidade de resposta do sistema de interceptação.


De modo que o método mais eficiente para proteção da tripulação e para evitar a destruição catastrófica do blindado pelo efeito jack-in-the-box, ainda é um layout que mantenha as munições longe da tripulação e do casco, para minimizar os possíveis danos e permitir o reparo rápido, geralmente substituindo apenas a torre danificada.

BCjgdxbjtdbxS.gif
Demonstração de um ATGM “Top attack”.
1618a0b74de220adfe5a7d1a5d593c51b64a5d33_big
RPG 30, originalmente criado para aumentar a capacidade de derrotar blindagem ERA, onde um pequeno projétil paralelo a munição HEAT anti carro, é disparado segundos antes da munição principal, atingindo o antes alvo e detonando o ERA, para munição posterior penetrar mais facilmente a blindagem principal. Entretanto, é alegado que esse sistema pode ser útil para criar um tipo de saturação contra APS Hard Kill, quando em distâncias curtas, embora ainda não tenha sido provado em combate.
PicsArt_03-04-12.05.18.png
A substituição da torre danificada é um processo fácil de realizar em campo, desde que o dano não tenha afetado significativamente o casco.

Outros carros de combate mais recentes que também adotam medidas para evitar o efeito jack-in-the-box são:

K1 da Coréia do sul, uma versão local do Abrams; o K2 também da Coréia do sul, que foi baseado no K1, mas recebeu um autoloader em posição similar ao Leclerc e o Type 90; o Altay da Turquia, baseado no layout do K2; Type 10 do Japão, com configuração similar ao seu antecessor, Type 90; T84 da Ucrânia, que recebeu um anel de proteção blindado em torno no autoloader carrossel, porém o mesmo ainda fica armazenado dentro da torre com a tripulação, além de aumentar o peso; T90SM russo, também adota o anel de proteção no autoloader carrossel, similar ao T84, e têm parte das munições armazenadas em um compartimento externo; entretanto as aquisições em série do T84 e T90MS ainda não foram confirmadas, pois são versões que sobrecarregam ainda mais os chassis dos veículos.



Fonte:

Maquinas de Guerra


Nenhum comentário