A mão que bate é a mesma que afaga: as guerras proxy

 

guerra por procuração


O que são as guerras proxy?


Como exemplo destas “novas” guerras podemos utilizar a crise que se desdobra na Síria desde 2011

Se “a guerra é a continuação da política por outros termos”, como sentenciou Carl von Clausewitzx, general do exército do Reino da Prússia (1818-1831), pode-se afirmar que quando a política entre os Estados perde espaço a política dos rebeldes assume o controle. Para este cenário foi cunhado o termo “Guerras Proxy” (ou guerras por procuração). Como exemplo destas “novas” guerras podemos utilizar a crise que se desdobra na Síria desde 2011. A escalada de violência que assola o povo sírio tem como escopo os protestos que tomaram corpo pouco depois do início da “Primavera Árabe”. O conflito capitaneado por grupos armados radicais, como o Al-Nusra, braço da Al-Qaeda, teve apoio da Arábia Saudita e da Turquia, com o intuito de fragilizar o governo de Bashar Al-Assad, presidente da Síria. Na pratica esse é o conceito de guerras por procuração. Em outras palavras, mas em termos teóricos, na medida que o conflito tem na dianteira grupos rebeldes, financiados por interesses de outros Estados contra o governo vigente no país, como é o caso da crise Síria, estamos diante de uma guerra por procuração.

Dado que a guerra proxy é um fenômeno que surge com a globalização, as migrações e as instabilidades vividas por muitos povos são, por decorrência, produtos de crises sociais, econômicas e, sobretudo, políticas, deflagradas nos ambientes de conflito. Cria-se nestas circunstâncias uma confusão na política, pois países que financiam essas guerras – a mão que bate – não assumem sua responsabilidade como agente da crise e utilizam-se de instituições internacionais, como a Organização das Nações Unidas (ONU) – a mão que afaga –, para a resolução do caos humanitário das migrações no Oriente Médio. Estudos, como de Michel Agier, demonstram que os campos de refúgio, locais gerenciados pelo Alto Comissariado das Nações Unidas para os Refugiados (ACNUR), que deveriam ser as “soluções” provisórias até que o conflito cessasse, são utilizados “para isolar e filtrar os estrangeiros” vitimados pela guerra. Agier, afirma que “a estratégia, que visa a privilegiar países tampões, especialmente na África do Norte, apoia-se no mesmo princípio de afastamento-encerramento dos indesejáveis”. Como sustentou Michel Foucault, “Os refugiados são os primeiros encarcerados fora”.

Hoje os números da ACNUR apontam que há mais de um milhar de campos de refúgio, nos quais vivem 12 milhões de refugiados ou deslocados. Esses espaços que deveriam ser provisórios estão virando pequenas “cidades” alocadas na África do Norte e na Ásia, com populações de 25 até 100 mil pessoas. Para os refugiados, os campos de refúgio são responsáveis por concentrar, por segregar e/ou por isolar a população afetada pela guerra. Nesse sentido, a concentração é definida pelo número de refugiados, a segregação pelos inúmeros casos de racismo que há nos campos e, por fim, o isolamento é constatado quando apenas uma pequena parte da população afetada pela guerra é autorizada a cruzar a fronteira em direção a Europa.

Uma vez que a mão que bate é a mesma que afaga, não há como estabelecer uma distinção entre o causador da guerra e o responsável pelos direitos humanos. Isso porque a mesma instituição responsável pela ajuda humanitária tem como membros, bem como financiadores, Estados ligados diretamente ao conflito. De certo modo, as guerras proxy velaram a participação dos Estados no conflito e, sobretudo, a responsabilidade dos atores internacionais na resolução do caos humanitário.


Fonte:

Folha do Noroeste


Nenhum comentário