CANNELURE TOLL




O termo “cannelure toll




Pouca atenção e quase nenhuma ressalva são dadas quanto ao tipo e características das munições utilizadas em armas de fogo. Como a balística é uma ciência muito ampla e poucas pessoas se dedicam ao seu estudo, pequenos detalhes acabam por passar despercebidos na utilização dos componentes que se têm à disposição.
Um destes caso diz respeito às canaletas que estão localizadas tanto em alguns projéteis de armas de fogo, como em seus estojos. Muitos não se dão conta da importância deste detalhe, porém, eles não foram confeccionados apenas por mero detalhe de determinado fabricante, mas com o objetivo de proporcionar maior qualidade à munição e também segurança na sua correta utilização, o que acarreta benefícios aos atiradores.




O termo “cannelure toll” significa uma canaleta/aprofundamento, o que é constatado ao se observar alguns modelos de projéteis e estojos. São processos realizados por alguns fabricantes em algumas munições ou séries específicas de munições, normalmente destinadas à utilização para defesa pessoal.
Há necessidade deste procedimento devido a diversos fatores, que podem variar conforme o tipo de armamento utilizado, tanto quanto à finalidade almejada pelo atirador.


Munição 44-40 produzida e exportada pela CBC com nome de MAGTECH.

Muitos atiradores ou proprietários de armas de fogo poderão observar que alguns calibres como o .44-40 Winchester, fabricados pela CBC, apresentam este detalhe característico de um aprofundamento do estojo logo na altura da base do projétil, o que se assemelha a uma cinta que tenha sido pressionada contra o estojo.
Tal configuração é encontrada nesta munição já que, como poucos têm conhecimento, o estojo deste calibre possui características cônicas e a canaleta presente no estojo tem a finalidade de melhorar a retenção do projétil em seu corpo. Isto se mostra útil já que esta munição foi projetada para ser utilizada nos Rifles/Carabinas de alavanca Winchester Mod 1873, cujos cartuchos utilizados, nestes tipos de armas, ficam alojados em um carregador tubular, localizado na parte inferior do cano. Desta maneira, todas as munições recebem a pressão da mola do carregador para municiar a câmara da arma, assim, caso a munição não receba um bom “Taper/Roll/Factory Crimp” o projétil será projetado para o interior do estojo, ocasionado uma diminuição na parte interna o que acarretará um aumento de pressão na hora do disparo. Como resultado, o atirador será exposto a riscos, assim como a própria arma.


Respectivamente Rifle e Carabina Winchester Mod. 1893 em calibre 44-40.

Talvez alguns leitores encontrem munições 44-40 Winchester sem este detalhe da canaleta, o que é possível, até porque, originalmente, quando projetada e lançada pela própria Winchester Company em 1873, essa munição utilizava pólvora preta e sua quantidade preenchia todo o recipiente interno do estojo, fazendo com que o projétil assentasse sobre todo o volume interno, impedindo que fosse projetado para seu interior. Com o advento das pólvoras modernas (pólvora química), manteve-se a mesma potência, assim como energias superiores desta munição, porém, com muito menos volume interno de propelente, o que acarretou uma sobra na área interna, o que exige agora uma melhor fixação deste projétil. Por isto a indústria se utiliza da canaleta no próprio estojo.


Ambas munições em calibre 44-40 uma sem canaleta e outra com.

Este detalhe de canaletas presentes nos estojos também pode ser reparado em munições de pistola, como em calibre 9x19mm, .40 S&W e .45 ACP dentre outros.
Isto se mostra necessário quando estas munições são destinadas à atividade de defesa pessoal, porque o atirador, ao utilizar uma pistola semiautomática, deve municiá-la e, para isto, há a necessidade de ciclar o ferrolho com o objetivo de inserir uma munição na câmara. Neste processo a munição sai do carregador, impulsionada pelo ferrolho e, antes de entrar na câmara, o projétil da munição choca-se contra a rampa da câmara, então a arma fecha-se pronta para o uso.
O motivo de a canaleta ser utilizada em munições destinadas à defesa é justamente pelo fato de que, ao alimentar a arma, pelo fato de muitos indivíduos possuírem porte de arma de fogo e, com base no seu dia a dia, podem adentrar em determinados locais onde devem esfriar as armas e, posteriormente, recarregá-las, o que faz com que as munições que utilizam, acabam por ciclarem diversas vezes e, este repetido processo, como foi citado acima, da munição chocar-se contra a rampa de alimentação, acaba por impulsionar o projétil para dentro do estojo.
Com a finalidade de impedir que o projétil adentre no estojo, é realizada esta canaleta neste tipo de munição.


Estojo de .45 ACP.

Importante frisar que tal método além de evitar o recuo do projétil para o interior da munição, reduzindo assim seu “C.O.A.L.” (comprimento total do cartucho), também reduz as chances de panes na alimentação da arma.


Medidas do calibre .45 ACP determinadas pela SAAMI.

Além de influenciar no sistema de alimentação da arma, deve-se ter em mente que, ao reduzir o espaço interno da munição, automaticamente, aumentará o pico de pressão interna na câmara, no momento do disparo. Isto é de suma importância, pois algumas armas não possuem muita tolerância à pressão, assim como algumas munições como o calibre .40 S&W, o qual foi projetado no seu limite; motivo pelo qual, no mercado, não existem estas munições em configuração “+P” e “+P+” como o caso dos calibres 9x19mm e .45 ACP.


Munições 9x19mm e .45 ACP ambas com canaletas.

Muitos acidentes são observados no Brasil com as pistolas .40 S&W utilizadas pelas Forças de Segurança, muitas vezes, pelo fato de as munições se romperem dentro da câmara, dilatando-se em excesso; e em outras ocasiões, com câmaras das armas se  rompendo. Isto ocorre pelo fato de este calibre não possuir muita tolerância para excesso de pressão, aliado à falta de informações dos membros destas Forças de Segurança. Por serem policiais que utilizam armas como instrumento de trabalho no dia a dia, acabam por manuseá-la com muita frequência, carregando e descarregando a arma e não se atêm ao fato de o projétil adentrar na munição durante este procedimento, resultando em danos e acidentes, tanto às armas quanto a seus operadores.


Cãmara e ferrolho danificados por excesso de pressão.

Tamanho é o aumento de pressão que, para se ter ciência, caso o projétil da munição .40 S&W venha a adentrar 2,2mm no corpo do estojo, o pico de pressão   sairá de seu padrão de 35.000 psi, alcançando até 67.000 psi. Para que se tenha ideia desta dimensão, o calibre 454 CASUL trabalha com a pressão de 65.000 psi e a munição de fuzil .308 WINCHESTER trabalha no patamar de 62.000 psi.


observa-se nesta imagem o aprofundamento do projétil da munição central.

RECARGA
Quanto ao procedimento de recarga de munição composta de canaletas de fixação, deve-se ter cuidado quanto a alguns quesitos.
Primeiramente, quanto aos projéteis utilizados na recarga de munição, se possível se deve priorizar aqueles que possuam canaletas para uma boa fixação no estojo no momento que for fazer o seu correto estrangulamento da boca do latão, seja por “Taper/Roll/Factory Crimp”. Em alguns casos, o atirador observará várias vantagens, principalmente na utilização de Rifles/Carabinas de alavanca (PUMA) devido ao seu carregador tubular que pressiona as munições umas contra as outras. Também na recarga de munições com pólvora lenta, pois a canaleta auxilia a manter melhor fixação do projétil, enquanto a pólvora queima, o que permite melhor velocidade do projétil, como no caso do calibre .357 MAGNUM.
Ademais, observa-se que a utilização da recarga de munições, como no caso do calibre .38 SPL, o qual é utilizado com projéteis de corpo com paredes totalmente lisas, sem canaletas, a sua utilização em carabinas de alavanca também é prejudicada, pois os projéteis tendem a adentrar no estojo, assim como sua utilização em revólver com plataformas pequenas. Neste caso, como os revólveres “Snub” (revólveres de armação pequena de 5 tiros e com cano de 2 polegadas), durante os disparos, alguns projéteis das munições alojadas no tambor acabam por se soltar, já que o recuo que a arma sofre é maior. Isto porque é uma arma mais leve frente aos revólveres de armação média e grande, aliado ao fato de os tambores serem menores. Como o projétil se solta e se desloca um pouco à frente, resulta no bloqueio da rotação do tambor e ocasiona a trava da arma. Uma canaleta presente no projétil seria a maneira mais adequada de corrigir este problema.


Exemplos de revólveres Taurus em armação pequena, média e grande.




Tambores de revólveres Taurus respectivamente em armação pequena (5 tiros), média (7 tiros) e grande (6 tiros).

Alguns atiradores, para impedir tal fato, acabam forçando o “Roll Crimp” no projétil, porém o projétil de paredes lisas (sem canaleta) não foi projetado para isto, o que pode ocorrer de o pescoço da munição ficar fora dos padrões recomendados pela SAMMI e não adentrar corretamente na câmara da arma, fazendo o atirador forçar a munição.
Assim, como houve uma força sofre a estrutura do projétil, ele irá alterar sua configuração, no caso do projétil ser pintado, poderá ocorrer desta tintura descascar no momento do disparo, o que resulta em alguns pontos de chumbamento no cano e prejuízo na precisão do disparo. Além disto, a aplicação de um Roll Crimp em um projétil que não possui canaletas resultará em danos tanto ao estojo quanto ao projétil.
Já quanto ao estojo, ao realizar-se a recarga da munição, o atirador deve ter em conta o tipo de projétil a ser utilizado nesta recarga. Isto se faz necessário já que, no momento em que há uma canaleta marcada no estojo, é esta que definirá o comprimento do projétil a ser inserido, uma vez que a canaleta cria uma pequena obstrução interna no corpo do estojo. Por exemplo: caso o projétil originalmente utilizado numa munição .45 ACP e a canaleta no estojo seja de 200gr, este estojo não deveria ser recarregado com um projétil de 230gr, pois este teria que ocupar uma área mais profunda no corpo interno do estojo, o qual está limitado para um projétil de menor comprimento, que é o caso do 200gr.
Caso o atirador deseje aprimorar sua recarga de munição e adaptar projéteis e estojos com canaletas, este fato é possibilitado por algumas ferramentas dispostas para a comercialização no mercado norte-americano a um custo aproximado de $ 100,00 (Bullet Cannelure Tool). Assim, há a possibilidade da confecção de munições mais aperfeiçoadas conforme a necessidade do treinamento do atirador, o que lhe dá independência da indústria, principalmente no Brasil, onde há um monopólio quanto à comercialização de munições (apenas CBC).


Máquina manual para confecção de canaletas em projéteis e estojos.

Na recarga de munição, é importante que o atirador verifique se o projétil ficou adequadamente preso no estojo. Para isto, basta virar a munição de ponta cabeça para uma bancada e pressioná-la com o dedão. Ao findar este processo, o projétil não poderá adentrar no corpo do estojo, caso contrário significa que não houve um correto estrangulamento da boa do estojo, ou mesmo uma correta calibragem do estojo. Por fim, o melhor procedimento é ciclar a munição na própria arma e verificar as medidas antes e depois. É normal que ocorra uma leve alteração, porém, se esta chegar a 0,010”, o processo deve ser revisto.
Um detalhe que não se deve deixar passar é o fato do “Expander Die”, ou seja, o Die Expansor. Deve-se ter em mente que este die, além de abrir a boca do estojo para a introdução do projétil, durante a recarga, também é responsável pela expansão do diâmetro interno da parte superior do estojo, justamente o local onde ficará alojado o projétil.


Die expansor.

Com isto, é necessário que o atirador tenha em mente qual o tipo de dies que esteja utilizando durante sua recarga. Importante frisar que algumas máquinas progressivas como a DILLON utilizam apenas a expansão da boca do estojo e não sua expansão interna. Além disso, deve-se observar qual o comprimento do corpo da peça de seu dies que irá expandir a parte interna do estojo, pois ele deve possuir a profundidade ideal do projétil que será inserido.
Caso o comprimento seja para o projétil mais pesado (comprido), como no caso do calibre .45 ACP, cujo projétil original é de 230gr, se tiver o dies compatível com o expansor interno nesta configuração, terá problemas caso utilize um projétil mais leve (curto) como o de 185gr, visto que este projétil adentrará com facilidade para dentro do estojo no momento em que se chocar contra a rampa de alimentação da pistola, gerando uma pena na arma. Para evitar isto, deve-se adquirir peças específicas para o projétil almejado, ou subir o die até a altura da profundidade adequada e então utilizar um die da marca Lee, o Universal Case Expanding Die apenas para fazer a abertura da boca do estojo, o que resultará em uma munição adequada ao uso. Este die, da Empresa Lee, trabalha com munições desde o calibre .22 até o .45, sendo essencial sua aquisição para estes casos.


munições .45 ACP.
Universal Case Expanding Die.




Projéteis de .38 SPL respectivamente em 125gr, 158gr e 180gr e .45 ACP de 200gr e 230gr. Observe a altura do “roll crimp” nos projéteis calibre .38, pois possuem alturas diferenciadas.

Outro fato importante que se deve ressaltar, é o caso da calibração total dos estojos. Há no mercado, dies para a calibração total e, alguns adaptam um pino para este processo com o objetivo de já realizar a retirada da espoleta e não precisar passar o estojo no die calibrador normal. O que muitos não têm ciência é que este die para calibração total, o qual pode ser encontrado tanto pela Empresa Recargamatic (calibrador total) como com a norte-americana Lee (factory Crimp Die + Buld Buster Kit) é que ele não configura as paredes do estojo no padrão adequado. Há a necessidade de que após a calibração total do estojo, este passe pelo calibrador normal do jogo de dies. Caso o atirador o utilize mesmo assim, irá reparar que muitos projéteis, conforme a calibração, chegam a deslizar para dentro de certos estojos sem muito esforço.
  

Autor: Augusto Thomazi Gassen

Fonte:
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