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O Míssil Antinavio


Os primeiros mísseis usados contra embarcações foram lançados de bombardeiros nazistas durante a segunda grande guerra, quando a Luftwaffe desenvolveu os modelos guiados por rádio Hs 294 e Ruhrstahl  X-1 (Fritz X), este uma bomba guiada, atingindo e danificando vários barcos aliados. Os Aliados por sua vez desenvolveram, já nesta época, para contrapor esta ameaça, as primeira contramedidas através do bloqueio aos sinais de rádio-guiagem. Estes também implementaram, já neste conflito, seus primeiros passos neste campo, porém com pouquíssima expressão.
Findo o conflito e com o advento da guerra fria, os aliados ocidentais abandonaram estes desenvolvimentos, concentrando-se na consolidação de sua estratégia de aviação naval. Os grandes encouraçados de outrora já haviam cedido seu trono a era dos porta-aviões, que reinam até os dias de hoje como as principais belonaves usadas para projeção de poder e controle de área marítima. Os EUA começaram em 1955 a mobiliar sua armada com estes super-navios capazes de embarcar quase uma centena de aeronaves. As forças da NATO passaram a contar, onde quer que estivessem, com ampla cobertura aérea de longo alcance em torno de suas frotas. Os estrategistas soviéticos consideravam o território da URSS um grande navio-aeródromo e não viam estes navios como uma prioridade. Suas numerosas bases aéreas lhes proporcionavam uma presença em grande parte do território mundial e fazer frente às armadas da NATO delineou sua estratégia naval, baseada em submarinos, minas navais e mísseis antinavio.
A Guerra dos Seis Dias de 1967, um dos episódios mais conhecidos da aparentemente sem fim disputa árabe-israelense, marcou a estréia de uma nova arma. Um projétil até então desconhecido do mundo, o Raduga P-15 Termit de origem soviética, mais conhecido pela sua designação NATO SS-N-2 Styx , atingiu o destróier do país judeu Eilat. Dois FACs da classe Komar (NATO) egípcios dispararam 4 mísseis desde uma distância de 23 km de Port-Said, onde serviam como unidades de defesa costeira. Apesar do fogo defensivo da tripulação do navio, que imaginou estar sendo atacada por aeronaves, já que estas armas eram novidade, 3 Styx o atingiram selando seu destino, que afundou em algumas horas matando 47 e ferindo gravemente grande parte de tripulação. Devido ao ineditismo da situação, o treinamento dos artilheiros para engajar este tipo de arma era inexistente.

O episódio provocou uma reação de surpresa e pânico nos estrategistas ocidentais, que se deram conta que não tinham nada parecido. Claramente os EUA (e a NATO) e seus poderosos porta-aviões estavam vulneráveis ao impacto de um pequeno projétil de pouco mais de 2 toneladas baseado na fuselagem de uma pequena aeronave experimental. Havia um imenso “gap” entre a URSS e a NATO, e esta pos mãos a obra com o intuito de superá-lo.
O desafio soviético era o de penetrar defesas poderosas e profundas para atingir navios muito grandes, representadas por ampla cobertura aérea vinda dos navios-aeródromos escoltados por sistemas antiaéreos Terrier/ Tartar e Talos e posteriormente pelo que de melhor existem em cobertura antiaérea naval na atualidade, o sistema AEGIS. Durante a 2GM o canhão era a principal arma naval, logo superado pelo avião no pós-guerra, que por sua vez dependia dos grandes e caros navios-aeródromos, só disponíveis às grandes marinhas. Penetrar estas defesas fazendo o uso de aeronaves de bombardeio não era uma tarefa fácil, o que resultou em desenvolvimentos de mísseis de longo alcance, dotados de ogivas potentes.
Diante destas necessidades tático-operacionais distintas, os mísseis antinavio soviéticos e ocidentais seguiram uma filosofia própria. Enquanto que os países da NATO desenvolveram engenhos menores, que podiam ser vetorados por caças capazes de levar seus mísseis mais próximos de seus alvos, com o intuito de atingir navios menores como eram aqueles do Pacto de Varsóvia, os soviéticos desenvolveram projéteis até hoje sem equivalentes no ocidente. Como tinham que lançar seus mísseis de alcances maiores acabaram por construir projéteis comparados a pequenas aeronaves pelo seu tamanho, deslocando-se a altas velocidades, por vezes supersônicas, para vencer defesas pesadas provenientes dos navios-aeródromos e com ogivas pesadas, algumas nucleares, para alvejar navios grandes, que por sua vez voavam mais alto e podiam ser mais facilmente detectados e interceptados, além de pouco manobráveis.

Na guerra naval existem uma distância padrão que é de 38/39 km. Esta distância se refere ao alcance de um radar montado no mastro de um navio qualquer, não importando sua potência. Esta limitação se dá pela curvatura da terra, a partir da qual o navio simplesmente não “enxerga”. Nenhum míssil disparado de uma nave de guerra pode atingir seu alvo além desta distância, simplesmente porque o navio não sabe que ele está lá, razão pela qual, por exemplo, o míssil francês MM38 Exocet foi concebido com alcance similar. Para contornar esta limitação e dispor de um alcance maior para suas armas, as marinhas de guerra tem duas alternativas: contar com suas várias unidades operando em comunicação constante, modernamente na forma de NCW, dizendo umas as outras onde os alvos estão, o que não resolve o problema, pois sempre haverá a nave que está mais à vanguarda, ou contar com meios aéreos que tem um horizonte-radar muito ampliado e podem designar alvos para mísseis com alcance superior ao padrão citado. Estes meios aéreos podem ser aeronaves de patrulha marítima ou AEW baseadas em terra, aeronaves baseadas em navios-aeródromos, helicópteros baseados em todos os tipos de navios, drones, dirigíveis, balões, etc...
A designação do alvo por um helicóptero naval, por exemplo, justifica a existência de mísseis lançados da superfície com alcance superior ao padrão citado. O meio aéreo tem que dizer onde o alvo está, e o míssil chegará até lá guiado pelos dados inseridos em sua memória antes do lançamento e trajetória garantida pelo INS. Ao aproximar-se do alvo, que não estará mais lá, pois deslocou-se e na guerra naval ninguém fica parado, o míssil ligará seu radar de busca e fará o ajuste fino de sua pontaria compensando a mudança de posição do alvo. Dessa forma temos mísseis com alcances bem superiores aos 38 km do horizonte-radar naval. Os mísseis antinavio lançados do ar não estão submetidos a esta limitação, pois o radar de seu lançador pode endereçá-lo diretamente. Por esta razão muitas marinhas que não dispõem de navios-aeródromos equipam seus helicópteros com estes projéteis, podendo helicópteros mais pesados portarem mísseis mais capazes.
Os mísseis soviéticos destacam-se pelo tamanho, alguns baseados em fuselagens de aeronaves já existentes como o Mig-15. Equipam bombardeiros, navios de superfície e submarinos. Possuiam ogivas poderosas e grande alcance como os Raduga KSR-2  (AS-5 Kelt) e Raduga KSR-5 (AS-6), com ogivas de 1 ton ou mesmo nuclear de 350kt, com alcance acima dos 300 km e velocidade acima de mach 3,5, tão grandes que um bombardeiro Tu-16 carregava apenas um deles nos tempos da Guerra Fria. Seguiram-se outros modelos como o P-120 Malakhit (SS-N-9) de mach 0,9 e alcance em torno dos 100 km+, o Raduga P-270 Moskit (SS-N-22) com alcance de até 270 km de velocidade de mach 3 e o P-800 Oniks (SS-N-26) que deu origem ao indiano Brahmos, também supersônicos (mach 2,5) e alcance por volta dos 300 km.

O ocidente adotou o conceito “sea skimming” , com o míssil voando rente a superfície do mar, não detectável, portando, por grande parte de sua trajetória, dificuldade esta acentuada pelo tamanho reduzido dos projéteis. Os modelos Exocet francês e Harpoon dos EUA se valem deste perfil operacional. Esta postura exige do projétil um rigoroso controle de altitude de forma a não se chocar com a superfície do mar, controle este desempenhado por um radar-altímetro. Vôos baixos não combinam com altas velocidades pois o arrasto é muito grande com impacto direto no alcance, e o supersônico Brahmos indiano voa baixo apenas em sua trajetória final.
Mísseis com maior velocidade reduzem o tempo de reação das defesas, porém consomem mais combustível e possuem maior assinatura térmica e radar, além de menor capacidade de manobra. Outra forma de dificultar o trabalho dos defensores é realizar ataques de saturação, onde vários mísseis são lançados ao mesmo tempo sobre um mesmo alvo. A guerra do Atlântico-Sul em 1982 mostrou ao mundo o poder deste projéteis, quando um AM39 Exocet da Armada Argentina fulminou o destróier de sua majestade Sheffield, um pouco acima da linha d’agua, pondo-o a pique, impacto este fruto de uma série de indecisões a falta de efetividade por parte dos defensores. Os últimos anos trouxeram radares capazes de “ver” de forma efetiva os mísseis de vôo baixo , que acoplados a sistemas antimísseis automáticos, com mísseis antimísseis ou canhões de tiro rápido, constituíram uma contramedida considerável, o que está forçando os projetistas a considerarem as tecnologias furtivas, pois aquilo que não se pode ver não se pode abater. Considera-se as tecnologias já conhecidas de materiais e formas, porém a operação passiva com disciplina de emissões também é importante.

Os mais populares mísseis do ocidente são Harpoon dos EUA, lançado da superfície, ar ou submarinos, subsônico, com até 250 km de alcance e ogiva de 221 kg, guiagem final por radar ativo. O MM-40/SM-39/AM-39 Exocet da MBDA com até 180 km de alcance, lançamento tal qual o americano e ogiva de 165 kg. Existem outros como o sueco RBS-15 com até 250 km de alcance e ogiva de 200 kg, o italiano Otomat e e o britânico Sea Eagle, entre muitos outros.
Um míssil antinavio é um pequeno míssil de cruzeiro, sendo que alguns mísseis de cruzeiro podem ser usados na função antinavio, como o Tomahawk dos EUA, o míssil antinavio de maior alcance do mundo, podendo atingir cerca de 1800 km, porém é um míssil de cruzeiro e custa como um. Outro conceito possível é o do míssil balístico, aventado pelo chineses como operacional. O vôo balístico combina altíssima velocidade e impacto cinético, prescindindo de explosivos. Como sabemos velocidades de reentrada superam em muito as marcas hipersônicas, e fica a dúvida quanto a efetividade: como se aponta de forma certeira um projétil balístico sobre um alvo móvel ? a resposta pode ser o ataque de saturação, onde muitos projéteis sobre uma frota, pode ser que acerte alguém. Radares ativos e aletas defletoras dirigindo um projétil incandescente ? Fica a dúvida. Porém, se forem eficazes, contramedidas terão que ser sofisticadas, para não dizer quase impossíveis. Talvez o futuro pertença a velocidade supersônica ou hipersônica e uma aparentemente incompatível capacidade furtiva.

Mísseis menores da variadas características foram desenvolvidos para equiparem os helicópteros navais, que além de designarem alvos para os vasos de superfície podem portar seus próprios projéteis, de alcance mais curto e ogiva menos potente, como o Penguin norueguês e o Sea Skua britânico. Pesam menos de meia tonelada e geralmente alcançam menos que o horizonte-radar da naves de superfície. Mísseis maiores como o AM39 também podem ser lançados dos helicópteros maiores como EC-725 ou Sea King. Estes Engenhos podem afundar barcos menores ou provocar deterioração nos sistemas e operacionalidade dos maiores. Como já citado o AM39 colocou um destróier britânico fora de combate. Uma pequena ogiva pode provocar uma grande dano se atingir um paiol ou reservatório de combustível, ou um dano operacional sério, se atingir, por exemplo um COC, mesmo em um vaso de grande porte. Ogivas podem ser equipadas com material incendiário para maior efetividade.


O foco na guerra de “águas azuis” da guerra fria passou a ser compartilhado com os conflitos assimétricos e mais próximos da costa dos tempos modernos, o que levou os mísseis antinavio a se adaptarem as peculiaridades deste cenário, cheio de meandros e recortes de litoral onde embarcações velozes e bem armadas reinam, operação esta que só se tornou possível devido a precisão de sistemas como o GPS que permitem que estes engenhos contornem os acidentes naturais. As embarcações de pequeno porte, privadas da operação dos grandes canhões no passado, passaram a contar com poder de fogo compatível. 

Para conter esta ameaça, é vital aos navios da atualidade disporem de contramedidas eficazes. O navio primeiramente tem que evitar ser detectado valendo-se de tecnologias furtivas e disciplina nas emissões. A primeira linha de defesa são a patrulhas de combate aéreo (CAPs), e seus mísseis ar-ar (AAM) geralmente oriundas de navios-aeródromos ou mesma baseadas em terra, estas de alcance limitado. Estas patrulhas podem alcançar centenas de quilômetros à frente da frota. Para aqueles que passem por esta primeira barreira, ou em grupos de combate desprovidos destes navios, a interceptação fica a cargo dos SAMs de defesa de área e que tem capacidade antimíssil, pois não é para qualquer um, como os Standart dos EUA. Se vencida esta segunda barreira fica ainda uma terceira e última camada representada por mísseis de defesa de ponto como o Sea Ceptor ou canhões de tiro rápido como os CIWS. Outras medidas também entram em ação como o lançamento de engodos (chaffs/flares) e outras medidas de EW e a diminuição do perfil, posicionando o navio de forma a oferecer um alvo menor.



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