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As armas dos cangaceiros nordestinos




Conheça as armas utilizadas pelos cangaceiros do nordeste brasileiro.





REVÓLVER COLT, Calibre .38 SPL (special), de diâmetro de 0.357 polegadas. De procedência norte-americana. Era niquelado e tinha cabo de madrepérola. Arma de fogo de uso manual, na qual a munição é alimentada através de um tambor rotativo. Utilizada pelos cangaceiros e, possivelmente para alguns, pelas Volantes. Conhecida popularmente como “Colt Cavalinho”.













Segundo Castro, "os acabamentos padrão da Colt são o 'blued'; que é um oxidado, feito com produtos químicos, dando uma camada protetora de cor azulada ou quase negra". Niquelado foi praticado em armas civis; como, a partir de 1877, o "Lightning" ou o "New Police" de 1896 (que originou o Police Positive de 1905). Portanto, armas militares e/ou policiais nunca foram niqueladas.






CARABINA WINCHESTER, Calibre 44 com cano de configuração oitavada (octogonal) para conferir maior peso e rigidez ao conjunto. Arma de repetição no qual o mecanismo é operado pelo deslocamento manual da "telha" da arma, que é móvel, e a cada movimento efetua a carga, ejeção e remuniciamento; em inglês "Pump Action". De procedência norte-americana.

O modelo 1873 era conhecido popularmente como Rifle "Papo Amarelo" devido a uma peça de latão exposta na parte inferior da caixa da culatra (parte posterior do mecanismo de uma Arma de Fogo, onde se aloja o mecanismo de disparo, localizada junto à coronha). Foi largamente usado no período inicial do cangaço, perdurando até 1926.

Segundo a crença popular, o apelido de Lampião surgiu devido a sua habilidade em atirar com este artefato bélico. Ele atirava com tanta velocidade, que nas batalhas noturnas, a arma criava um clarão em sua volta como se fosse um lampião. Contudo, Macedo atesta que Sinhô Pereira (chefe e introdutor de Lampião no cangaço) teria - muito antes - a mesma habilidade: "O nome de Sebastião Pereira era um brado de guerra daquelas paragens. (...) As volantes policiais do Ceará, de Pernambuco e da Paraíba conheciam o clarão do seu rifle vingador..." (1980 p. 45)






FUZIL MAUSER, Conhecido em língua inglesa como "Rifle" (que deriva de "Rifling": as raias que promovem movimento rotatório ao projétil, dando precisão ao mesmo). Entre nós é conhecido como F. O. (fuzil ordinário). Também, é o nome genérico que se dá ao fuzil Mauser 1908 (calibre 7x57 mm) KAR e seus sucessores. Apresenta o pomo do ferrolho reto. Por seu grande comprimento ser incômodo e os combates, via de regra, se darem entre 50 e 200 metros, seu sucedâneo natural foi o "mosquetão". De procedência alemã.

Arma Longa portátil de uso militar e de funcionamento totalmente manual, ou seja, de ação de repetição simples e com capacidade de tiro de longo alcance. Possui o cano raiado (concêntrico, 4 raias concêntricas para a direita, uma volta em 240 mm) e deve ser apoiada ao ombro do atirador. Carregamento através de carregador (interno, cinco cartuchos escalonados) ou tiros simples. 

Tendo comprimento total de 125 cm (155 cm com baioneta), comprimento do cano de 74 cm, peso de 4,1 kg (4,7 kg com baioneta) e alça de mira de lâmina regulável entre 100 a 1.200 m, com acréscimos de 100 m. Uma cadência de tiro de 20 disparos por minuto e um alcance de efetivo de 600 m. Donde, o sistema de funcionamento de fuzil ou carabina consiste de um tubo (caixa de culatra) que recebe o ferrolho cilíndrico com uma "orelha" ou haste, o qual insere a munição na câmara do cano, para a seguir fechar o mecanismo e se efetuar o disparo.

Castro observa que "o passo da raia era de 220 mm, e a alça era graduada de 300 metros (ponto branco) até 2.000 metros. O alcance efetivo é subjetivo, na verdade, acima de 400 metros é muito difícil esperar que um soldado acerte um alvo. Cadência de tiro também é subjetiva, já que é possível dar até 40 tiros por minuto com a arma (não apontados)".

Sua "aquisição", em 1926, pelos cangaceiros deu-se quando da incorporação do grupo de Lampião aos famosos "Batalhões Patrióticos" criados para combater a Coluna Prestes no governo do presidente Arthur Bernardes. São, provavelmente, os fuzis remanescentes dos 400.000 adquiridos pelo Exército nacional em 1908 para substituir os Mauser 1894, já usando munição pontiaguda e de melhor efeito balístico. Semelhante ao fuzil G98 alemão, mantinha o calibre tradicional brasileiro e certas modificações para atender as necessidades nacionais, como a alça de mira, mais simples e barata. O seu conceito, de arma de longo alcance, ficou obsoleto desde a 1ª Guerra, contudo o Brasil comprou fuzis idênticos em 1935 que ficaram em uso até 1954.





MOSQUETÃO MAUSER, Modelo 1908 alemão, calibre 7x57mm, cano curto e usavam o mesmo cartucho do fuzil regulamentar, o F. O. (largamente usado pelo Exército Nacional até a década de 60 quando foi substituído pelo Fuzil Automático Leve - FAL 7,62mm , de procedência belga). Não devemos confundir com o modelo de 1894 (na verdade uma clavina, mas conhecida, também, como mosquetão) ou com o de 1922 (Mosquetão Mauser Belga).

Deve-se observar que, no período do Cangaço, segundo Castro, "havia dois tipos de cartuchos 7x57mm em uso, o modelo 1894 (ogival) e o modelo 1908 (ogival pontiagudo, com curva de pressão mais rápida). Ambos os cartuchos eram comuns, pois as metralhadoras e fuzis-metralhadoras Hotchkiss só aceitavam o modelo 1894, enquanto os fuzis metralhadora Madsen e os fuzis/mosquetões normais funcionavam melhor com o modelo 1908".

Distingui-se do fuzil por seu comprimento mais curto e pela alavanca do ferrolho curva (pomo arqueado), mais fácil de usar. Possui o cano raiado (concêntrico, 4 raias concêntricas para a direita, uma volta em 240 mm) e deve ser apoiada ao ombro do atirador. Carregamento através de pente-carregador (interno, cinco cartuchos escalonados) ou tiros simples. Tendo comprimento total de 111 cm, comprimento do cano de 60 cm, peso de 3,8kg e alça de mira de lâmina regulável entre 100 a 2000 m, com acréscimos de 100 m. Uma cadência de tiro de 20 disparos por minuto e um alcance efetivo de 1000 m.

Sua "aquisição", após 1926, pelos cangaceiros nunca chegou a ser devidamente esclarecida nos anos seguintes até 1938, quando se deu a morte de Lampião. O "fornecedor" de tais armas e sua respectiva munição jamais foi descoberto, porém existiam apenas especulações, como: os coronéis (para manterem seus feudos), elementos pertencentes à própria polícia (por dinheiro) e até, estrangeiros que então detinham o monopólio sobre telégrafos, ferrovias, distribuidoras de energia elétrica e rodovias no interior do Brasil.

Segundo Castro, tais armamentos "podiam ser contrabandeados por ex-praças: sem nenhuma dificuldade. A encomenda de fuzis e mosquetões de 1894, 1908 e 1922 foram imensas (centenas de milhares de armas), muito maiores do que as necessidades do Exército, de forma que todos os quartéis tinham em depósito uma grande quantidade de armas em excedente, para armar reservistas em caso de mobilização".






PISTOLA LUGER PARABELLUM, Modelo 1908. Calibre 9 mm (nove milímetros), comprimento total de 222 mm (tendo o cano 103 mm), o peso de 0,85kg, empunhadura em madeira (geralmente, nogueira) e carregador para 8 cartuchos. Os cangaceiros, geralmente, zigrinavam ou recartilhavam (decoravam) empiricamente as empunhaduras; podendo, até, ser confundidas com mossas. De procedência alemã. (A origem da palavra Pistola deriva-se da cidade de Pistóia, situada na Toscana, província italiana, famosa por seus armeiros durante o século 14; em inglês "Pistol")





PISTOLA FN-BROWNING, Modelos 1910 e 1911 A1. Calibre 7,65 mm (32 ACP) - cano de 3,5 polegadas. Arma pequena, portátil, para uso a curtas distâncias, que pode ser empunhada, armada e disparada com uma só mão, possuindo cano de dimensões relativamente pequenas. Mais conhecida como pistola FN (Fabrique Nationale d'Armes de Guerre de Herstal, Bélgica). Foram armas de dotação das forças armadas dos Estados Unidos e de inúmeros países, inclusive o Brasil. No cangaço era utilizada normalmente pelas mulheres do bando. De procedência belga.






FUZIL-METRALHADORA HOTCHKISS,

Hotchkiss 8mm é uma arma específica do exército, entre um fuzil e uma metralhadora, pesando uns 8 kg. Foi muito usada por forças públicas estaduais, também. O modelo mais provável de ser encontrado no interior do Brasil e, conseqüentemente, o utilizado pelas volantes seria a Hotchkiss, modelo 1921.




PISTOLA-METRALHADORA MAUSER, Mauser (Mauser Schnellfeuer-Pistole), Modelo 1932. Calibre 7,63 mm. Pistola automática com a capacidade de disparar em fogo seletivo, ou seja, em tiro intermitente ou rajadas curtas ("bursts"), normalmente de três disparos, visando economia de munição.






SUBMETRALHADORA BERGMANN, MP 18 e MP 18-1, modelo 1918. Calibre 7.92mm. Arma longa de funcionamento automático, capaz de dar rajadas, com seu receptáculo do carregador (montado pelo lado esquerdo da arma) ligeiramente inclinado e disparava ambos os cartuchos: o 7,63-MAUSER e o 9mm-LUGER. De uso do Exército Alemão (infantaria e aviação) na I Guerra Mundial foi de entrada relativamente fácil aqui no Brasil tendo em vista ser terminantemente proibida na Alemanha após o Tratado de Versalhes. Esta submetralhadora (metralhadora de mão, curta e de calibre calçado por pistola), foi largamente utilizada pelas Forças Volantes, principalmente, nos últimos combates contra o cangaço.

Tendo, duas dessas peças, sido utilizadas pela Volante do Tenente Bezerra no combate final do Angico em 1938. Seus carregadores teriam a capacidade para 50 tiros cada. Conhecida também como “costureira” ou "matraqueira". De procedência alemã.






ADAGA: - Punhal de lâmina de aço, com 67cm (sessenta e sete centímetros) de dimensão e o cabo, 15cm.



O CANGAÇO




Nas sociedades rurais subdesenvolvidas, segundo Chandler, "o banditismo sempre captou o interesse e a fantasia do povo. Na verdade, o fascínio que estes bandidos exercem e a criação de lendas sobre eles - sem mencionar o fenômeno do próprio banditismo - parecem ter sido universalmente difundidos. O homem, ou ocasionalmente a mulher, que vive fora da lei como um celerado errante, aparentemente livre de qualquer restrição da sociedade, desperta uma fibra de nossa imaginação, principalmente quanto mais remotas forem sua colocação no tempo ou no espaço. Deste modo, os ingleses vibram com os feitos de Robin Hood e seu alegre bando; os americanos contam as aventuras de Jesse James; os mexicanos, as façanhas de Pancho Villa, e os brasileiros, as de Lampião." (1981 p. 15)

O chamado ciclo do Cangaço ou como muitos - dentre eles o escritor britânico Eric J. Hobsbawam - o denomina: "ciclo do banditismo social", localizou-se ao longo dos Estados da Bahia até o Ceará, em toda a extensão do vasto hinterland nordestino e foi um verdadeiro flagelo que se abateu sobre as populações sertanejas. Tal fenômeno perdurou por cerca de sete décadas (1870-1940).

O cangaço – da forma como o conhecemos atualmente - surgiu com Virgolino Ferreira da Silva, o famoso Lampião, seu expoente máximo e que aterrorizou o nordeste brasileiro entre os anos 1920 e 1938. Arrastando-se, por mais dois anos após sua morte neste ano de 1938, através da figura de Corisco (Christino Gomes da Silva) seu sucessor e lugar-tenente, morto em 1940, em combate com a volante do Ten Rufino na Bahia. A despeito, de outros cangaceiros - não menos famosos - que os precederam, como: Jesuíno Brilhante, Adolfo Meia-Noite, Antônio Silvino, Sinhô Pereira e Luiz Padre. Há, também, os precursores do cangaço ou "pré-cangaceiros" (anteriores a 1870), que foram: Cabeleira e Lucas da Feira, dentre outros menos pesquisados ou de insuficientes subsídios históricos.

O historiador Vassalo Filho, entende o cangaço como a vida ou atividade criminosa dos grupos de bandoleiros andarilhos dos sertões nordestinos do Brasil. Sendo a palavra derivada de canga: jugo de madeira com que se jungem os bois ao carro ou ao arado. Os apetrechos usados pelos cangaceiros, cruzados ao peito, lembram a canga do boi; e, portanto, sua submissão a um chefe, líder ou senhor. Nas palavras poéticas de Barroso, "o cangaceiro leva nos ombros o bacamarte, como o boi leva o jugo."

O periódico Folha de São Paulo, nos diz que o vocábulo "cangaceiro'' tem origem nos tempos da escravidão. Quando os negros fugitivos, eram capturados e colocados sob tortura em um instrumento conhecido por canga. A partir daí, principalmente no norte do país, todo marginalizado social que se revoltava era chamado de cangaceiro.

Por outro lado, os reais cangaceiros eram grupos nômades que agiam de forma isolada ou em grupos autônomos, praticando assaltos e latrocínios em estradas e veredas, extorsão, locação de serviços (empreitadas de morte), invasão de propriedades particulares, arruados, vilas, cidades, com o objetivo de saquear, destruir, seqüestrar para a cobrança de resgate, "venda" de proteção contra ataques de outros grupos, indo até ao extremo, como a cobrança de "comissões" nas transações e negócios, feitas pela população. Sendo muitas dessas ações intimidatórias e de vingança, praticadas por encomendas daqueles que lhes davam sustentação.

Segundo Ferreira & Amaury, "Existiam pelo menos dois tipos de cangaceiros. Os cangaceiros itinerantes, que são os mais conhecidos, andando em grupos compostos de membros mais ou menos permanentes e os chamados cangaceiros mansos, pessoas que viviam em fazendas, sob proteção de seu proprietário e por este utilizados em seus objetivos tanto de defesa quanto de ataque aos inimigos. Faziam-lhe os trabalhos sujos em troca de guarida." (1999, p. 24) Também, podemos dizer que os cangaceiros mansos eram denominados de "cabras" ou "capangas" (pistoleiros domésticos ou guarda-costas) eram, quase sempre, aparentados do coronel ou eram trabalhadores da fazenda que mantinham uma relação de submissão e dependência para o chefe ou capataz. Uma outra figura, desse contexto, é o "jagunço", que era um mercenário isolado e chamado para "tarefas" específicas.

A atuação desses bandoleiros, estendia-se pelos sertões de sete estados do nordeste, compreendidos por Bahia, Sergipe, Alagoas, Pernambuco, Paraíba, Rio Grande do Norte e Ceará. O medo deflagrado por esses elementos e seus grupos - que variava de 5 até mais de 100 componentes - quando se reuniam para um objetivo definido; faziam com que a região interiorana destes estados, quase estagnasse, pela insegurança para as transações comerciais, reduzindo-lhes sobremaneira o intercâmbio de mercadorias, serviços e outros gêneros entre as diversas localidades.

Suas táticas operacionais tinham características próprias, como: as emboscadas, o elemento surpresa, o corte das linhas de transmissão e a simulação da ação de animais próprios da região. O bando era originalmente revestido de uma selvageria desmedida e impiedosa. Com o ingresso da mulher, em 1930, aos poucos foi se tornando mais tolerante, menos nômade, adotando um comportamento mais higiênico e mais harmonioso no traje, passando a evitar mais os combates cruentos, adotando novas formas de conseguir recursos, como os bilhetes de solicitação e intimidação expressa. A este respeito, Sila menciona que "as mulheres do cangaço não entravam nas guerrilhas para atirar (isso no meu tempo). Recebíamos uma mauser e um punhal, porque se atacassem tínhamos como nos defender. Por precaução, aprendíamos a atirar." (1995 p. 33)

O cangaceirismo se consolidava como um poder maior nos sertões, na figura lendária de Lampião, que se tornava aos poucos apreciador de gostos sofisticados como um bom whisky escocês, perfume francês, jóias, armamentos, binóculos, etc. O seu "marqueteiro" (marketing-counselor) chegara, em 1936, na figura do mascate árabe Benjamin Abrahão, que registrou através de sua máquina fotográfica e filmadora, o dia-a-dia do cangaço e da chamada "aristocracia cangaceira": os momentos de lazer, a dança, a encenação das táticas de combate, a pose de carinho e ternura, fotos para a família e, até o cartão personalizado com a foto do chefe maior do cangaço, usado para emitir salvos condutos e intimidatórias solicitações "amigáveis" de recursos pecuniários.

Lampião, entre um combate e outro, se divertia promovendo folguedos dançantes ou "arrasta-pés", com direito à sanfona de oito baixos (gaita-ponto, para os gaúchos) e ao arrastado sapateado denominado "xaxado" e, por vezes era filmado nas terras do seu feudo - em sua aparente impunidade - garantida pela falta de empenho das autoridades constituídas em debelá-la e a política de "convivência pacífica" com as elites rurais.

Tais elites eram representadas pelo ícone maior do "coronel", uma típica figura do anacronismo recalcitrante do setor rural, ainda persistente à época onde a prática eleitoral vigente era perpetrada pelo chamado "voto de cabresto"; onde o eleitor, tal qual uma cavalgadura, era conduzido aos "currais eleitorais" para sufragar o candidato do seu "coronel". Sua corporificação remonta à Guarda Nacional Imperial, instituída em 1831. Sendo, seus elementos, arregimentados entre a "escol do poder local" e lhes eram conferidas as patentes de coronel, major ou capitão, dependendo do prestígio ou apadrinhamento políticos. Esta, teve seu processo de extinção iniciado logo após a promulgação da República em 1889.

O poder do "Coronel" era medido pela quantidade de aliados que conseguia arregimentar e pelo tamanho de sua "milícia" particular de jagunços. Por extensão, o vocábulo coronelismo, significando "despotismo ou tirania", dai originou-se. Tais figuras eram o sustentáculo da "República Velha" e do seu famigerado "sistema político-oligárquico" (com suas variantes regionais), como base de sustentação da "Política dos Governadores" com o poder central republicano, vigente até 1930.

Como bem justifica Martins, que "... naquelas eras, cada coronel era o chefe de um grupo. Lampião era apenas o chefe de um grupo maior, sem ligações políticas, sem raízes, sem interesses outros que não o imediato, do saque, da satisfação de instintos bestiais, da destruição para se vingar do governo que o perseguia. Era o chefe de um grupo que não dependia de ninguém, que não obedecia a ordens de outros, muito embora às vezes tivesse servido de instrumento de vingança de determinados chefetes, com os quais se apaniguava para realizar 'serviços' especiais." (1967 p. 9)

Porém, o reconhecimento nacional, desse estado de coisas, veio a constranger o poder central, a presidência da República, forçando-a esta a tomar atitudes conjuntas com os Estados atingidos, criando situações mais favoráveis à ação das volantes, que melhor treinadas e mais belicamente equipadas, contando até com metralhadoras, levaram o cangaço a sua derrocada final, na figura do Tenente João Bezerra, como agente de um trabalho meticuloso por ele arquitetado e empreendido, na grota do Angico, em Sergipe, em 28 de julho de 1938.

Contudo e, em essência, não devemos nunca nos esquecer que, no seio do cangaço, mormente sua atividade criminosa, manifestava-se uma forte reação social ao obtuso poder central, aos coronéis e às equivocadas autoridades em geral - da época, responsáveis pela miséria, pelo descaso e pelo abandono das populações sertanejas castigadas por secas prolongadas e marcadas por desigualdades sociais de um lado e, do outro, pelas "guerras" entre as famílias tradicionais por questões da posse de terras e pelo comando político da região. Corroborado pelo fato de que no final do século XIX, no ocaso da monarquia, a concentração de terras - pelos poderosos - havia atingido um grau nunca antes alcançado e o fenômeno cíclico das secas tornado a situação das populações campesinas pobres em faméricas e indigentes; fazendo-as se organizaram em hordas fora-da-lei para assaltar e conseguir alimentos.


LAMPIÃO




Virgolino Ferreira da Silva, filho de família humilde, pequenos proprietários de terra, que se dedicavam a agricultura, pecuária e almocrevaria. Nasceu no sítio Passagem das Pedras, no município de Vila Bela, região do Vale do Pajeú, hoje a cidade de Serra Talhada em Pernambuco no dia 07 de julho de 1897 (conforme certidão lavrada pelo Estado no lugarejo de Vila São João do Barro Vermelho, atual Tauapiranga) ou no dia 04 de junho de 1898 (conforme certidão lavrada pela Igreja Católica na diocese de Floresta, paróquia de Bom Jesus dos Aflitos), esta última - muitas vezes - aceita como documento oficial.

Medeiros, poeta cordelista, aceita e notifica que a data correta do nascimento de Virgolino é a de 12 de fevereiro de 1900, lastreado que "este dado foi fornecido pelo próprio Lampião ao escritor cearense Leonardo Mota, em 1926, no Juazeiro do Norte. Dois batistérios fornecidos após a morte de Lampião apresentam desencontros quanto ao ano do nascimento: um diz que Lampião nasceu em 1898, outro 1899." (1996 p. 1).

De início sua vida transcorria pacata e ordeira até o surgimento de um entrevero por causa de um morador-agregado (que se suspeitava vir a ser o ladrão de sua criação de caprinos) do seu vizinho José Saturnino. O agravamento crescente dessas desavenças - presume-se - fez com que Virgolino viesse a enveredar por um caminho marginal, inicialmente com dois dos seus irmãos Antônio e Livino, vindo a se juntar ao grupo posteriormente o irmão mais novo e pouco experiente, Ezequiel. O outro irmão de nome João, era débil mental e segundo Mota, "jamais acompanhou a irmandade delinqüente". (1967 p. 17).

Optando por cometer delitos e a se juntar a grupos como os "porcinos" e os "matildes", do seu tio Antônio Matilde, Lampião dá início a um ciclo de violência e banditismo, sem precedentes na região, enveredando pela marginalidade empedernida.

À Dona Maria (sua mãe) se creditava o apoio ao procedimento dos filhos, afirmado por testemunhas, à época, que diziam que o Sr. José Ferreira (seu pai) desarmava os filhos na porta da frente e ela os armava na porta de trás. Nesse ínterim e, na prolongada ausência dos filhos, ocorre o falecimento da mesma, acometida de um enfarte fulminante.

Dias após, em uma incursão da volante, comandada pelo sargento José Lucena Maranhão, da Polícia Militar de Alagoas, juntamente com o delegado Amarílio, de Matinha de Água Branca à residência de Luiz Fragoso, procurado pela polícia por crime de morte, a fatalidade fez com que lá estivesse o pai de Virgolino, que se refugiara com a família quando se dirigia para a cidade de Mata Grande em busca de um refúgio onde não fosse mais perseguido. Tornou a ação da volante, face à reação oferecida pelo procurado, resultante nas mortes do próprio Luiz Fragoso e do Sr. José Ferreira.

Os irmãos Ferreira, tomando conhecimento do ocorrido, só puderam chegar ao local dias depois, seus pais já haviam sido enterrados no cemitério de Santa Cruz do Deserto, tendo os irmãos Ferreira, perdido pai e mãe em pouco mais de duas semanas. Virgolino, face aos acontecimentos, passou a ter o cangaceirismo como atividade única e elegeu o sargento Lucena e o civil José Alves de Barros o "José Saturnino", como os seus maiores inimigos.

Virgolino selou o seu destino quando, pelo fato de já ter perdido pai e mãe, cooptou - entre seus afoitos camaradas - aqueles que tivesse coragem para acompanhá-lo e, iniciando doravante uma trilha de sangue, terror e dor fazendo com que os chefes de outros grupos, a exemplo do seu tio Antônio Matilde, se intimidassem e não mais quisessem chefiá-lo, deixou-o mais à vontade, para consolidar o seu nome e formar seu próprio grupo. Tornando-se conhecido e temido por onde passava e, distinguindo-se, dos outros grupos que atuavam nos sertões, por ter ações sanguinárias, de um lado e inusitadas de outro: o emprego de extremada perversidade, do saque, da pilhagem, da extorsão e, paradoxalmente demonstrando em certos rompantes de piedade, alguma forma caridade aos miseráveis.

Deflagrando, daí em diante, o "famigerado" Lampião (assim adjetivado, vaticinado e tornado célebre pelo periódico Diário de Pernambuco), uma verdadeira guerra de larga envergadura, entre 1920 e 1938, em uma área interiorana de sete estados nordestinos e autodenominando-se, ousadamente, de o "Governador do Sertão". Tornando-se ai, o "Inimigo Público nº 1" da polícia nordestina.

No entender do historiador Cavalcanti, "tanto na disputa pela terra quanto no sentimento de vingança pela morte do pai estão presentes valores distantes e quase desconhecidos do cidadão urbano médio de hoje em dia. Assim, para compreender Lampião é preciso contextuá-lo em seu tempo e lugar." (1997)

Contudo, segundo Ferraz, Virgolino "não foi obrigado - por perseguições - a adotar uma vida de banditismo; ao contrário, foi combatido por ter-se transformado em temível bandoleiro. Seu pai teve o fim precipitado pela turbulenta vida dos três célebres filhos [Virgolino, Antônio e Livino]. Antes que fosse muito tarde, Lampião recebeu conselhos e advertências e, o mais importante, o exemplo de numerosos habitantes da região em que vivia; contudo, fustigou-os de tal forma que os obrigou a se transformar de pessoas reconhecidamente pacíficas em arqui-inimigas do cangaço quando perderam a crença em sua sobrevivência sem recursos da luta armada." (1985 - p. 12).

No ideário popular, Virgolino conquistou o apelido de Lampião num de seus embates com a polícia militar, quando gabava-se que - no decorrer de uma luta - sua espingarda não deixara de ter clarão, "tal qual um lampião". Lira nos apresenta - historiadamente - quatro hipóteses para a alcunha famosa, como se segue:

A primeira delas surgiu após a retirada dos Ferreira para Alagoas onde fixaram residência no lugar Santa Cruz do Deserto, município de Mata Grande. Com eles foram muitos amigos e agregados, como: Pergentino Belxó, Luiz Gameleira, Manoel Tubino, e Cajazeira (estes dois últimos, já cangaceiros afamados). Por último, juntaram-se a eles os irmãos Benedito (José, Olímpio e Manoel). Foi exatamente na afirmação de Olímpio Benedito que no intervalo da marcha "ao meio dia, no descanso na Lagoa dos Soares, quando palestravam e brincavam, surgiu naquele descanso, naquela palestra, o vulgo de Lampião para Virgulino Ferreira." (1997 p.43)

A segunda deu-se, durante forte perseguição exercida pelo tenente Lucena (antes mencionado como sargento) sobre os Ferreira, quando do ingresso dos mesmos no bando de Antônio Porcino. Que, nas Alagoas, sob forte fogo cerrado em Pariconha; Virgolino "com o seu rifle peado, formando na boca do mesmo um grande e luminoso farol, dando a impressão de um lampião, surgiu o nome de guerra do famoso cangaceiro." (1997 p. 57)

A terceira foi em condições semelhantes à segunda, travada nas trevas de uma noite sem luar e, Virgolino salientando-se mais que os demais e "com toda a escuridão, entravam em feroz fuzilaria. Os bandidos jogavam balas como chuva em cima da polícia que, destemidamente, avançava contra os inimigos. A luta foi seriamente arrochada, apesar do número inferior de bandidos (doze homens), isto sem haver recuo, mas devido ao forte avanço do tenente Lucena os cangaceiros deram costas, deixando morto o cangaceiro "Gafanhaque." (1997 p. 59)

A quarta e última versão tem origem num forte tiroteio onde foi morto o cangaceiro Pitombeira e ferido o bandido Lavandeira. Virgolino surpreendeu seu chefe de então, o famoso Sinhô Pereira, conquistando sua confiança e inspirando-a em todo o grupo. Indagado pelo mesmo, após um boa noite de descanso, sobre os requisitos que o mesmo teria para ser um cangaceiro de verdade e continuar em seu bando, respondeu "apenas que no seu rifle, no tiroteio da noite anterior, jamais faltou clarão. Ao ouvir estas palavras, os célebres cangaceiros Baliza e Cajazeira, gritaram: - Temos agora, um lampião! Temos agora um lampião! Não andaremos mais no escuro!. Daquele dia em diante, Virgulino passou a atender, por Lampião." (1997 p. 61)

Segundo Vassalo Filho, Lampião fisicamente "tinha cerca de 1,70 de altura, tipo amulatado, compleição rígida e era cego do olho direito. Sua canga era composta, além das armas habituais, de carne assada, charque, bolachas e café, pedaços de queijo e rapadura, misturados com farinha de mandioca. Conduzia ainda algodão, tintura de iodo, casca de juá e aguardente alemã [schnaps]. Papel e lápis, além de muito dinheiro. Todos esses apetrechos de sua 'canga' chegavam a pesar mais de 20 quilos, o que demonstrava a resistência de quem os conduziam, em longas caminhadas de léguas e léguas e durante tantos anos.

Alguns escritores como Oliveira, A., descreve-o mítica e apaixonadamente que “Cangaceiro nenhum estaria à altura de superá-lo como chefe. Ele [Lampião] possuía todas as qualidades necessárias... (...) inteligente, enérgico e autoritário. (...) Nunca manuseou livros como o Regulamento Interno de Serviços Gerais – RISG, Regulamento Disciplinar do Exército – RDE, porém sabia manter a disciplina entre seus comandados” (1970 p. 48).

Na criação ficcional de Aguiar, Lampião descreveu aos meninos da cidade de Jardim no Vale do Cariri cearense, as forças policiais que o perseguia, da seguinte maneira: " - Macacos [referindo-se às Volantes], (...) são os soldados pagos pelo Governo para nos matar. Mas eles, como todo mundo já sabe, são uns mortos-a-fome, uns comprados. Uns macacos, portanto." (1990 p. 79)

Porém, a realidade histórica é bem outra, como atesta Prata, e diz: "Impossível seria narrar os crimes praticados pelo famigerado malfeitor e seu bando. São tão inúmeros, que se avolumam tanto todos os dias e todas as horas que não haveria páginas que os comportassem. (...) A criminalidade bárbara de Lampião assume aspectos inéditos. Vê-se claramente que ele se debate na angústia da inovação, buscando sempre modalidades novas de torturas física e moral, como os famosos supliciadores chineses. (...) Corta orelhas, castra, estupra raparigas adolescentes, contaminando-as de mal venéreo; viola mulheres casadas à vista dos maridos. Surra, à palmatória e chicote, mulheres, velhos e crianças; ferra moças na face, no púbis, nas coxas!...". (1985 p. 72) Como, também em complemento, nos reporta Carvalho que "... nunca houve celerado que tivesse à sua conta maior acervo de crimes e atrocidades! Assaltou cidades importantes, assassinou, roubou, estuprou, incendiou como nenhum outro congênere ousou fazer entre nós em tempo algum. Jamais houve história de banditismo nordestino, bandoleiro que lograsse com o sortilégio do seu nome, reunir em torno de si o respeitável contingente de mais de uma centena de sequazes. E o mais importante, por estranho que pareça, todos bem armados e municiados com armas e munição do governo! [?]..." (1974 p. 150).

Lampião - juntamente com sua companheira Maria Bonita e mais nove cabras - veio a falecer em combate na Grota do Angico, segundo Oliveira, J., "... local pertencente - na época - à região de campo-santo do município de Morgado do Porto da Folha ..." (hoje pertencendo ao município de Poço Redondo), às margens do rio São Francisco, no estado de Sergipe, onde estava acoitado, confrontando-se com uma volante do Tenente João Bezerra da Silva da Polícia Militar de Alagoas, na manhã da quinta-feira 28 de julho de 1938.



Pacheco, um outro poeta cordelista, sobre o episódio, alegoriza sobre a pretensa chegada de Lampião no Inferno e verseja da seguinte maneira (alguns excertos):

"Um cabra de Lampião
Por nome Pilão Deitado
Que morreu numa trincheira
Um certo tempo passado
Agora pelo sertão
Anda correndo visão
Fazendo malassombrado


E foi quem trouxe a notícia
Que viu Lampião chegar
O inferno nesse dia
Faltou pouco prá virar
Incendiou-se o mercado
Morreu tanto cão queimado
Que faz pena até contar

.................

Lampião disse vá logo
Quem conversa perde hora
Vá depressa e volte já
Eu quero pouca demora
Se não me derem ingresso
Eu viro tudo asavesso
Toco fogo e vou embora"


Por fim, Ferreira & Amaury nos incita dizendo que: "Lampião deveria ser tão conhecido, no Brasil, tanto quanto os personagens do velho oeste norte-americano, o foram em sua terra. No entanto as circunstâncias culturais brasileiras criaram esse tipo de distorção que, se não temos a ilusão de poder corrigir, podemos, pelo menos, desafiar. Deveria fazer parte de nossa cultura e de nosso imaginário com o mesmo peso e a mesma divulgação dos personagens do velho oeste americano." (1999 p. 26).


MARIA BONITA




Maria Gomes de Oliveira, também conhecida como: Maria Déia, Maria de Neném e, posteriormente, Maria Bonita. Segundo Lira (1990 p. 505), seria chamada: Maria Adelaide. Nasceu no interior da Bahia, no município de Jeremoabo em 1911. Filha de José Felipe de Oliveira e Maria Joaquina Déia e teve 12 irmãos: Ananias, Antonia, Arlindo, Benedita, Chiquinha, Deusinha, Dondon, Dorzina, Izaías, José, Naná e Ozéas.

Casou-se, aos 18 anos, com o sapateiro José Miguel da Silva (o José de Neném) e foram viver no município vizinho de Santa Brígida. Porém, segundo Ary, “Maria e Neném não se davam bem, por isso ela visitava freqüentemente seus pais. A fazenda ficava na fronteira entre Bahia e Sergipe, por onde Lampião passava muitas vezes. Seus pais consideravam Lampião um grande homem. Foi a mãe de Maria quem contou a Lampião que sua filha tinha uma grande admiração por ele”.

Santos, um poeta cordelista, fala sobre o primeiro encontro do casal e verseja da seguinte maneira (alguns excertos):


"O certo é que Lampião
Tinha o coração de aço
Beijava qualquer morena
Mas não queria embaraço
Mas vivia apaixonado
Por não haver encontrado
A rainha do cangaço.

Porém um dia feliz
Ele encontrou sua dita
Bem perto de Paulo Afonso
Numa casinha catita
Estava seu grande amor
Uma melindrosa flor
A ‘tal’ Maria Bonita.''


Foi a primeira mulher (então com 19 anos) a ingressar no bando em 1930. Lampião foi o primeiro cangaceiro a arranjar uma companheira fixa e trazê-la para a horda itinerante. Diante do fato, comenta Araújo: "Com esse 'Abre-te Sésamo', dado pelo chefe, imediatamente foram sendo 'convocadas' novas sertanejas para as fileiras do 'exército' lampiônico". (1985 p. 374)

Araújo, também comenta que ela, foi: "sem dúvida, a figura mais conhecida, comentada, divulgada, valorizada, adulada, elogiada, dentre todas aquelas mulheres que viviam com cangaceiros. O fato de ser amante do chefe supremo lhe dava tal privilégio." (1985, p. 168)

Maria Bonita era uma mulher atraente. Tinha o tipo físico, da mulher sertaneja: baixa, bem proporcionada, olhos escuros, cabelos lisos escuros e pele morena clara.

Segundo Pernambucano de Mello, “era [cerimoniosamente] chamada de ‘Dona Maria’ pelo bando, quando se dirigiam diretamente a ela, ou a ‘mulher do Capitão’, quando se referiam a ela.” Porém, Lampião a tratava carinhosamente por "Santinha". Pois, a alcunha "Bonita", acredita-se, foi algo mais decantado pelos "paisanos" - após sua morte - do que propriamente pelo próprio grupo a qual pertencera. Enfatizada tal posição, quando Martins nos diz que: "... sua aproximação com Maria Bonita só tomou ares românticos depois de sua morte - na verdade, enquanto atuou no Nordeste, jamais a figura de Maria Bonita teve nenhuma significação na vida e nas aventuras do bandido." (1967 p. 10) Embora muitos outros casais famosos tenham surgido, como: Baliza e Antonia; Cajazeiras e Enedina; Canário e Adília; Cirilo e Moça; Corisco e Dadá; Criança e Dulce; Gato e Inacinha; Gitirana e Maria Cardoso; Labareda e Mariquinha; Luiz Pedro e Nenê; Mariano e Adelaide; Moderno e Durvalina; Moita Brava e Doninha; Mourão e Sabina; Pancada e Maria de Pancada; Passarinho e Lica; Pedra Roxa e Quitéria; Português e Cristina; Serra Branca e Eleonora; Zé Baiano e Lídia e Zé Sereno e Sila, dentre outros.

As mulheres participavam ativamente do bando, além de companheiras, davam apoio nos combates. A este respeito, Sila menciona que "as mulheres do cangaço não entravam nas guerrilhas para atirar (isso no meu tempo). Recebíamos uma mauser e um punhal, porque se atacassem tínhamos como nos defender. Por precaução, aprendíamos a atirar." (1995 p. 33).

Em entrevista dada ao periódico O Estado de S. Paulo, nos anos 70, Balão (ex-cangaceiro) declarou: "Enquanto não apareceu mulher no cangaço, o cangaceiro brigava até enjoar. Depois, diante de qualquer perigo, logo se podia ouvir: ai, corre, corre!".

Sinhô Pereira, um outro antigo cangaceiro e chefe do jovem Lampião quando este iniciou-se no cangaço, também era contrário à presença feminina: "Eu fiquei muito admirado, quando soube que Lampião havia consentido que mulheres ingressassem no cangaço. Eu nunca permiti. Nem permitiria." Afinal, o padre Cícero tinha profetizado: "Lampião será invencível, enquanto não houver mulher no seu bando." A historiografia do cangaço registra também uma tendência a identificar o declínio do movimento à sua abertura às mulheres.

Maria Bonita esteve ao lado de Lampião no mundo do cangaço por 8 anos e com ele teve uma filha – Maria Expedita - em 1932 que foi entregue e criada por um "coiteiro" de Sergipe, como faziam os casais cangaceiros à época. Tombou no combate do Angico, em 1938, juntamente com Lampião e mais 9 "cabras".


OS COITEIROS

Coiteiro (ou couteiro) quer dizer: “guarda de coutada”. Coutada, por sua vez, é a terra onde a caça é proibida. Deriva-se, pois, de coito (ou couto).

Couto (ou coito) compreende-se por terra coutada ou aquela onde se podiam asilar os criminosos, onde não entrava a justiça do rei (em Portugal e no Brasil-colônia). Contudo, o sentido lato do vocábulo “coito” (do latim coitus, junção) significa cópula ou relação sexual.

Isentando-nos do purismo castiço da lusa língua, a variação “Coiteiro” aplicada no nordeste brasileiro significa, segundo Ferreira: “aquele que dá coito, [homízio], [refúgio] ou asilo a bandidos [ou alguém de reputação suspeita]". (2000 p. 162)

Para que entendamos o grau de ampliação dado, recorro a Prata, que assim o diz: “Para ser acusado do crime de dar coito a Lampião não é preciso mais que o abrigue durante uma noite, alimente-o, ou lhe forneça armas ou dinheiro. Ser coiteiro para a polícia é servir-lhe um copo d’água numa rápida parada de sua marcha incessante; é vê-lo passar ao longe, e não ir, pressuroso, delatá-lo; é topá-lo na estrada e responder às perguntas que lhe forem feitas; é, enfim, todo aquele que voluntária ou involuntariamente tenha com ele o mais leve contato. A estes chamaremos ‘pseudo-coiteiros’.” (1985 p. 102)

Conforme Prata (1985 p. 102-109) a classificação de coiteiro comporta três categorias:

A primeira delas diz-se do “coiteiro-involuntário” que protege o bandido premido pelo medo, sabendo que pagará com a vida qualquer inconfidência ou delação feitas.

A segunda diz-se do “coiteiro-vingativo” que age para tirar desforra por alguma ofensa a si ou familiares, por diferentes causas.

A terceira diz-se do “coiteiro-comerciante” que age para auferir proveito pecuniário sobre o fornecimento de víveres, armas e munições, por preço usurários e além do mercado.

A essas nós poderíamos acrescentar mais:

A quarta diz-se do "coiteiro-agradecido" que age em gratidão por receber (ou ter recebido) favores e dinheiro, em retribuição aos mesmos.

A quinta diz-se do "coiteiro-político" que era, nada mais nada menos que, o chefe político da região ou coronel-coiteiro, na busca de proteção ou mais poder.

O mais famoso “coiteiro” foi Pedro de Cândida - (e não Pedro Cândido ou Pedro de Cândido), segundo D. Cyra Bezerra em conversa com este autor. Corroborado, também, por Araújo (1985 p. 238), nesta assertiva. - Quando este levou o Tenente Bezerra e sua coluna para o “coito” de Lampião na grota do Angico na manhã (5h30) de 28 de julho de 1938, onde o mesmo pereceu - juntamente com Maria Bonita e mais 9 cangaceiros - em cruento combate.


Pedro de Cândida




AS VOLANTES




Após a difícil, constrangedora e impopular campanha de Canudos, o Exército regular não poderia mais vê-se em embates de natureza policial. Contudo, ainda era maciçamente empregado - por não existir uma força policial federal à época - em ações típicas dessa força. Isto, além de afastar-lhe de sua função constitucional precípua: a defesa territorial contra ataques de natureza externa, enfraquecia-lhe pela falta de treinamento específico, desviando-lhe da proximidade e do avanço tecnológico-bélico-militar de então; contido na chamada política de "paz armada" européia.

Surgindo ante os fatos, a insatisfação da tropa e a recusa para tais ações subalternas. Pois, segundo Mello "a verdade era que as forças iam atuar dentro do país com desvantagens imensas, maiores do que se o fossem em país estrangeiro, principalmente no que se refere à espionagem; mais eficiente, esta, e perigosa no sertão de Canudos, porque inidentificável na confusão e na confiança de serem todos brasileiros. (...) O Exército ia operar, prejudicado pelo mais temível corpo de espionagem, com que se pode contar (espiões compatrícios) sem que dispusesse de um outro para contaminar a ação nefasta do primeiro." (1958 p. 79-80)

O Exército, ainda, sob o "diáfano" manto da doutrina positivista era um verdadeiro "exército de papel". Porém, com a campanha cívico-patriótica bilaqueana pela escola popular e pelo serviço militar obrigatório(em 1915) e a desativação definitiva da Guarda Nacional (em 1918), abriu-se um novo horizonte para a Corporação e houve - então - um absoluto controle militar interno, desarmando-se as oligarquias coronelistas locais. Trevisan, nos lega que com "a chegada da Missão Militar Francesa, em 1920, completa-se o quadro das mudanças internas da instituição. Começava a delinear-se as mudanças 'externas', fruto das alterações até então técnicas da instituição militar". (1987 p. 50)

Por outro lado, os governos estaduais nordestinos, vendo-se agravar o banditismo nas regiões interioranas do agreste e do sertão, viram-se na contingência de criar forças policiais-militares de emprego rápido e que teriam - inclusive - nativos recrutados dessas regiões. Surgindo daí as verdadeiras volantes que eram grupamentos, destacamentos ou patrulhas tático-móveis, compostas essencialmente por militares (policiais das Forças Públicas estaduais ou militares do Exército nacional, devidamente comissionados para este fim), comandadas - preferencialmente - por um oficial (tenente ou capitão). A esse respeito, Rangel de Farias alude que "era muito comum acontecer que os oficiais do Exército, quando chamados a comandar polícias, trouxessem a idéia de que as mencionadas corporações fossem compostas por uma maioria de homens ignorantes e indisciplinados" (1995 p. 8)

Recrutados - entre os etno-nativos da região: curibocas, mulatos e cafusos - esses grupos de policiais-militares, percorriam equipados e a pé, grandes distâncias em perseguição aos malfazejos foras-da-lei, muitas vezes, mantendo um combate desigual, pois os chamados cangaceiros estavam melhor municiados, com armamento mais moderno e em melhores condições, diante das facilidades que estes tinham em conseguir recursos e alimentos, bastando para isso mandar pedir um salvador "óbolo", através de bilhetes a qualquer fazendeiro ou político. Estes, para não enfrentarem a ira daqueles facínoras - que com uma possível recusa, estariam na mira de uma próxima incursão, com a visita indesejada, inesperada, desmoralizante e de funestas conseqüências - viam-se, forçados a atendê-los em todas as suas "justas" demandas.

A bem da verdade, devemos colocar que algumas forças denominadas "volantes", se utilizavam dos mesmos métodos que os cangaceiros. A esse respeito Torres, observa que "tardiamente, a polícia se organizava em 'volantes', com o mesmo jeito dos facínoras, tomando também dinheiro dos coronéis e demonstrando, com forrós e alegria, quando um combate os afastava para as brenhas." (1994 p. 47) Já Carvalho nos passa que "Eram inomináveis as violências e arbitrariedades praticadas pelas forças volantes que transitavam pelo interior dos Estados, contra os direitos dos particulares. (...) Qualquer futilidade servia de pretexto para esculachos desumanos. (...) A integridade física e moral dos sertanejos não existia para aqueles que por dever de ofício estão na obrigação de respeitar e proteger." (1974 p. 91)

Ferraz, com muita propriedade, atesta que, quando vindo ocasionalmente da capital, as verdadeiras forças volantes "encontravam, apesar de seus esforços, grandes dificuldades no desempenho de sua missão: a primeira delas era constituída pela imensidão da caatinga desconhecida e habitada por uma população reduzida, emudecida e temerosa de represálias. (...) Era a velha história: as forças volantes chegavam e partiam mas os cangaceiros permaneciam para a cobrança." (1985 - p. 221)

Por este fato, lembra-nos Britto que "a polícia se via na necessidade de alargar a sua área de ação e não ficar limitada a seu território jurisdicional, porque os bandidos circulavam agilmente entre os Estados, forçando as volantes que os perseguiam a se conter nas fronteiras, cabendo à volante de outros Estados, a dar continuidade a perseguição, fato este que face a dificuldade de comunicação da época, favorecia sobremaneira aos grupos, a evadir-se, dificultando com isto a sua captura. Forçados por esta situação, os Estados vieram a formalizar tratados que permitiam as forças volantes a se deslocarem transpondo as fronteiras sem prévia solicitação, favorecendo com isso um combate mais intenso e eficaz. Estas enfrentavam um complexo e desfavorável sistema para o desenvolvimento das suas ações. Os meios de comunicação eram precários, (...) as volantes não tinham destino certo, uma vez que podiam mudar de itinerário a qualquer momento, bastando para isso achar indícios de bandidos e seguir o rastro, uma informação de um vaqueiro ou coiteiro, ou mesmo o ataque de bandidos a uma localidade, ou a mais cruel das informações que seria a emboscada da volante, quase sempre em terreno desfavorável a mesma." (2000 p. 19-20)

As volantes, já estruturadas nos idos de 1920, se especializaram no combate ao cangaceirismo em suas mais diversas caras. Sobreviviam com parcos recursos governamentais, com armamento e municiamento, na maioria das vezes bem mais antigo que o dos cangaceiros e conseqüentemente, menos eficazes. Se deslocavam em marchas incertas, rastejando pistas e levantando indícios nas caatingas, portanto fadadas a ficarem muitas vezes cobertas por andrajos, sem água e mantimentos ou bebendo água contaminada, imprópria ao consumo, se alimentando e dormindo mal, ao relento e durante o dia expostas a um sol abrasador e uma vegetação inóspita, formada por facheiros, macambiras, xique-xiques, alastrados, urtigas, unhas-de-gato, rabos-de-raposa, coroas-de-frade, mandacarus, caroás e quipás, em alguns casos intransponíveis. Expostos, em conseqüência do que lhes era imposto por um dever de profissão, a males como: úlcera nos pés, espinhos, cortes, infecções, disenteria, dor de dente, astenia, dores musculares, desidratação, impaludismo, ferimentos a bala, varíola e a tuberculose.

Porém, Bezerra observa que, a despeito de todos os revezes e, "com o enfraquecimento do prestígio da 'política' pela aparição do Estado Novo, os oficiais comandantes de 'volantes', iniciaram uma ação menos tímida, prendendo os tais vaqueiros [coiteiros, que davam guarida aos cangaceiros], conduzindo-os à presença dos seus 'coronéis', fazendo entre todos uma meticulosa acareação e, de acordo com o apurado, sem mais consultas, levando-os à presença das autoridades da Capital. Daí, salva a responsabilidade do oficial, com a resolução das autoridades superiores sobre o caso, fica o oficial prestigiado e com a sua moral intacta, muito embora depois venha a perder, por ter ficado mal visto pelos admiradores do 'chefão' [verdadeiro senhor feudal] ". (1940 p. 7)

Portanto, ainda no dizer de Britto, "sem a dedicação e a bravura desses valorosos militares esse mal teria se alastrado, ceifando mais vidas inocentes, não merecendo ficar no obscurantismo ou em plano inferior aquele que é destinado aos benfeitores ou heróis." (2000 p. 21).


TENENTE BEZERRA




João Bezerra da Silva, nasceu no interior de Pernambuco, na localidade chamada Serra da Colônia, no município de Afogados da Ingazeira em 24 de junho de 1898. Filho de Henrique Bezerra da Silva e Marcolina Maria Bezerra da Silva, pequenos proprietários de terra que viviam da agricultura e da pecuária.

Dividia as peraltices infantis com mais seis irmãos: Cícero, Amaro, Manuel, José, Vitalina e Maria. Desde pequeno demonstrava um temperamento forte e generoso.

Jovem ainda, assentou praça na Polícia Militar de Alagoas (então Força Pública) em Maceió, onde iniciou a sua carreira militar em 29 de março de 1922. Tendo conquistado uma folha de serviços marcada de promoções por bravura e merecimento, sendo - em conseqüência - escolhido para as mais árduas, difíceis e diferentes missões.

Foi servindo no 2° Batalhão em Santana do Ipanema, a partir de 1930, que - somente contra o bando de Lampião - empreendeu onze ações de combate que culminaram em 28 de julho de 1938, com o combate do Angico - Sergipe, em que o levou a concretizar o sonho de todos, de pôr um fim a escalada do terror personificado: Lampião.

Bezerra, profissional dedicado e destemido, em um dos seus muitos combates foi ferido e ficou com seqüelas que lhe causaram dificuldades de locomoção por longo tempo. Por esse motivo, Lampião o apelidou de "Cão Coxo" (na alegoria mística do nordestino, Cão significa: Diabo, Demônio, Satanás, Capeta, etc.). Pois, para ele era o Tenente Bezerra, além de seu principal algoz, o "Cão em figura de gente". Em contrapartida, era chamado, por este, de: "O Cego".

No combate do Angico, além do próprio Lampião, tombaram Maria Bonita e mais nove cangaceiros, sendo um acontecimento de grande abrangência social e repercussão internacional à época, resultando, também do combate, a morte do soldado Adrião Pedro de Souza e um ferido, o próprio tenente Bezerra, com um tiro transfixado na mão e outro na coxa, ficando a bala alojada no quadril.

A esse respeito, o já mencionado poeta cordelista, Medeiros verseja da seguinte maneira (alguns excertos) :

"............
Os cabras de Lampião
Inda mataram um soldado.
O Tenente João Bezerra
Numa perna baleado,
Como o balaço foi leve
Ele ficou aprumado.
............

Um soldado valentão,
Chegou lá reconheceu,
Lampião morto no chão
Deu um grito que tremeu:
- Tenente João Bezerra,
O cego agora morreu!
............

Quando o Tenente viu
Lampião morto no chão
Nunca houve para um homem
Outra maior emoção,
Saber que matou o rei
Do cangaço do Sertão."

(1996 p. 45-46)



Posteriormente, Bezerra foi recebido - no palácio do Catete - pelo então Presidente da República Dr. Getúlio Dornelles Vargas que nutria grande interesse pelas campanhas e pelo término das ações dos cangaceiros. Depois passou a destacar-se, em comissão, em funções de Estado-Maior da PM alagoana e, também como delegado de polícia judiciária (permitido pela legislação de então) em várias cidades do Estado. Galgou, desde o alistamento como soldado, todas as graduações (praça) e postos (oficial) da força policial a qual pertencia. Passou ao posto de Coronel (último da carreira) e foi para a reserva em 04 de outubro de 1955. Daí em diante, dedicou-se à agricultura e à pecuária.

Sobre o grande feito de Bezerra, Pernambucano de Mello, em justas palavras, nos lega que "A fortuna militar do então tenente João Bezerra - em vida não costumava usar o da Silva de seu nome - responde pelo feito. Feito d'armas, como gostavam de dizer os antigos, e feito de méritos incontestes, além de notavelmente importante para a história da região, sejam quais tenham sido as circunstâncias sob cujo império se produziu." (1983 p. 34).

Britto, muito bem sintetiza sua última senda, referindo-se que "foi maçom, alcançando na Ordem - que preserva como valores máximos, a família e o equilíbrio da sociedade - o "Grau 18", vindo a falecer na cidade de Garanhuns-PE. em 04 de dezembro de 1970, vitimado por um derrame [aos 72 anos de idade]. Recebeu alusões honrosas pela Câmara de Vereadores daquela Cidade. Seu corpo foi velado no quartel da Polícia Militar de Alagoas em Maceió, onde recebeu homenagens e foi sepultado no Mausoléu da Maçonaria, deixando o exemplo de vida para os que valorizam os padrões éticos da Sociedade." (2000 p. 29).


Fonte: 




Um comentário:

  1. senhor, o proprio Zé sereno que esteve no angico em 1938 disse em varias entrevistas que o nome é pedro DE CANDIDO, os autores que o senhor cita estiveram lã? e até falaram!!! Ccom o dito? eu acho que não

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